quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sofia

laguna3

Foi numa noite como esta que ela chegou. Eu nada podia fazer naquele momento. A tempestade foi rápida e avassaladora. Lembro-me bem porque o meu corpo sentia este mesmo estremecimento ao ser sacudido pela brisa da manhã que estava por vir. Não dizia nada. Palavra nenhuma poderia dar um destino diferente àquela noite. Senti-me prisioneiro da minha alma, clandestino em meu corpo. Culpado e com nenhum esforço para obter a inocência, carreguei religiosamente meu sinistro fado.

A sombriedade dos dias que se seguiram foi-me remédio, comparada ao peso da dor que violava meu espírito. Fui o eterno doente a quem não interessa a cura. Deleitava-me em meus pesares. A cada angústia regozijava-me, como o pai se regozija ao receber em casa o filho outrora perdido. Não questionei o destino de meu espírito; minha alma se esparcia, então, na densa escuridão em que vivia. Onde habita, oculta, a luz.

Dói-me sua agressão; lastima-me seu toque. Carrego no espírito as incuráveis chagas que ela me trouxe, na alma, o ardente desejo de possui-la e no corpo, as inegáveis evidências do meu pecado. Cigana, me ressuscitou da morte causada por ela mesma. E, por isso, aprisionou-me. Não há caminho de volta. Assim como a noite esconde o dia, seu mistério arrebatou meu ser.

Amo-a por isso odeio-a. Somos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Beethoven - Symphony No. 9





Vibrante... Violento... Suave... Arrebatador...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Telefone


O telefone tocou e ele se levantou, preguiçosamente, para atender. 6:15am. Quem poderia ser? Seja quem for, não quis dizer nada; talvez porque percebeu que havia discado o número errado, ou porque sentiu medo de dizer o que tinha de dizer. Seja qual for o motivo, a pessoas do outro lado da linha apenas aspirou profundamente o ar gelado da manhã e uns segundos depois desligou o telefone.

Ele não deu muita importância ao caso. Nem voltou para a sua cama. Dirigiu-se à cozinha e preparou um café. Tomou um banho, vestiu seu uniforme, entrou no carro. Trabalhou. Chegou em casa por volta das 7 pm, havia passado na casa de um amigo. Tomou um banho. Sentou-se no sofá e ligou a televisão, desligada cinco minutos depois. Foi à cozinha e leu os recados pregados na porta da geladeira. Saiu.

Quando passava pela esquina que separava seu prédio do pequeno mercado da esquina, o telefone público, instalado ali, ele bem lembrava, há duas semanas, tocou. Sem motivo algum ele parou para atender o telefone. Era um senhor querendo remédio para a gripe. Desligou o telefone e se dirigiu ao pequeno mercado da esquina. Lá comprou o que havia ido comprar e voltou, solenemente, para casa. Ao passar pelo telefone da esquina ainda conseguiu esboçar algo parecido com um sorriso.

Entrou em casa. Ela já havia chegado. Largou um “boa-noite” e foi direto para a cozinha. Ela o seguiu e lá conseguiram soltar mais algumas palavras ao vento. Jantaram. Assistiram a novela, o jornal. E foram dormir.

6:15 am.

O telefone tocou. Ele se levantou, preguiçosamente, para atender. Suspiro. Dessa vez a pessoa do outro lado da linha consegue dizer um “alô”. Mas não diz nada mais. Ele desligou o telefone. Foi até a cozinha, preparou seu café, tomou seu banho. Mas antes de sair pela porta de casa ela pergunta onde ele ia. Ele olha para ela, sem ver quem estava à sua frente. Era sábado. Eles voltaram para a cama.

Levantaram-se às 10 am. Tomaram café como se nada. Conversaram coisas supérfluas, esquecidas cinco minutos depois. Mas se lembraram que era sábado. E ele decidiu então contar a ela dos telefonemas anônimos. Ela ignorou o fato e disse que devia ser engano. Ele engoliu a história com o café. Chegou o almoço. Ela disse que amanhã era dia de ir visitar sua mãe. Ele não foi contra, apesar de detestar tais visitas. A noite empurrou, vagarosamente, a tarde clara, porém fria.

6:15 am.

O telefone tocou e ele se levantou, preguiçosamente, para atender. Suspiro. Uma voz de mulher soou no telefone; ele teve dificuldade de entender o que ela disse. Mas creu que conseguiu captar o essencial. Voltou para a cama após desligar o telefone. Ela o acordou, 11 am. Ele se levantou. Tomou seu café. Saíram. Passaram o dia fora. À noite eles chegaram, tomaram um banho. Jantaram o que trouxeram do almoço. Ligaram a televisão e logo foram dormir.

6:20 am.

O despertador tocou e ele se levantou. Ficou sentado na cama olhando para o telefone. Finalmente se levantou e se dirigiu, vagarosamente, à cozinha. Tomou seu café, se banhou. E saiu para o trabalho. Mas ele não havia se esquecido daquela voz tão profunda. Passou o dia pensando nela. E no que ela havia escutado. Ele não conseguia achar, porém, motivo para isso.

O dia passou lento e cansativo. Ele chegou em casa, ligou a televisão, desligada cinco minutos depois. Se dirigiu à cozinha e leu os recados deixados na geladeira. Saiu. Se deteve ao passar pelo telefone na esquina. Lançou um olhar profundo sobre as teclas. Tomou um sobresalto ao ouvir o som estridente que saiu do aparelho. Ainda assustado, atendeu. Uma jovem procurava alguém.

Ele chegou em casa, ela estava sentada no sofá, chorando. Ele não queria dizer nada, mas precisava. Ela havia sido dispensada do serviço. Ele se preocupou, não muito. Eles dariam um jeito. Mas ela estava inconsolada. Decidiu ir passar uns dias na casa de sua irmã. Ele não se atreveu a dizer que não. Ela fez as malas nessa mesma noite. Sairia no outro dia bem cedo. Foram dormir.

Quando ele acordou com o despertador, ela já havia saído. Ele agora, antes de ir preparar o café, precisava ir acordar o resto da casa. Todos em pé, tomaram café e sairam juntos. Mas o destino não era o escritório. Ele agora teria de passar pelo velho colégio, onde passou toda a sua adolescência, lembrança que ele não queria ter. Agora, sim, rumo ao trabalho. O dia passou nem muito lento, nem muito rápido. Mas ele agora precisava, novamente, enfrentar sua adolescência.

Chegou em casa, não ligou a televisão. Foi à cozinha, não havia recados. E ele, então, se sentiu sozinho. Foi ao pequeno mercado da esquina. Voltou e preparou um rápido jantar. Essa noite ele não quis ver televisão. Foi mais cedo para a cama. Adormeceu rápido. Mas achava que a cama estava muito espaçosa. Pediu que uma delas fosse dormir com ele.

6:15 am.

O telefone tocou e ele, preguiçosamente, se levantou para atender. Um profundo suspiro fez com que ele estremeçesse. Ninguém dizia nada, nem ele aqui, nem ela lá. Ele foi à cozinha, preparou o café. Despertou toda a casa. Saíram. Lembranças. Mais um dia, mais uma tarde.

A noite chegou mansa. Ele pensa nela. Saiu para ir ao pequeno mercado da esquina. Ao passar pelo telefone, ele soou estridente. Ele se deteve. Não queria atender. Mas sua ansiedade sempre foi maior. Um senhor, ele achou que o mesmo da outra noite, procurava um mesmo remédio para a gripe. Ele desligou o telefone e foi ao pequeno mercado. Dessa vez ele não sorriu ao passar pelo telefone.

6:15 am.

O telefone tocou. Preguiçosamete ele se levantou e foi atender. Suspiro. “Alô”. Ele permaneceu imóvel por um tempo. Mas despertou do transe e foi preparar o café, acordar a casa, enfrentar seu passado e passar mais um dia como todos os outros. Mas ele estava apreensivo. Não conseguia se concentrar. A ansiedade era muito grande. Ela perguntou se ele estava arrependido. Ele não respondeu.

A noite veio violenta. Ele sentia que o mundo ia desabar. Foi ao pequeno mercado da esquina. Encarou o telefone. Voltou para casa. Sentiu, novamente, aquela terrível solidão. Teve vontade de chorar. Foi mais cedo para a cama. Mas não conseguia dormir. Ficou pensando.

6:15 am.

O telefone tocou. Ele não queria atender. Olhou pela janela. O dia estava mais bonito; o sol parecia que ia brilhar mais forte. O telefone continuava tocando. Decidido, ele atendeu o telefone. Ouviu o suspiro e a mesma voz profunda, dessa vez, triste. Ele ficou gélido por uns instantes. Mas despertou e foi fazer o café, acordar a casa, enfrentar seus medos, sobreviver a mais um dia. Mas ele percebeu que o clima estava diferente. As pessoas estavam mais felizes. O sol mais brilhante.

A noite chegou manhosa. Ele se dirigiu ao pequeno mercado da esquina. O telefone tocava. Ele ignorou. Voltou para casa. Preparou o jantar. Foi dormir mais cedo. Adormeceu rápido.

6:20 am.

A casa amanhece em um sombrio silêncio.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Meu Amor (?)


Não há nada mais triste que vê-la dessa maneira.

Não é a primeira vez que passamos por isso. A primeira vez estávamos em um restaurante. E então aconteceu. De repente. Eu não sabia o que fazer, pior, não sabia o que dizer. Deixei passar.

A partir de então se tornou mais comum. Eu fingia que não via. E ela aproveitava a situação. Fazia e repetia todas as vezes que queria. E eu a cada vez que se repetia deixava de querer-la; mas não lhe dizia nada.

Não que eu quisesse deixar de amá-la. Mas ela me obrigava a isso. Pois me fazia sentir menos homem.

Se eu pudesse dizer isso para ela, acho que seria melhor. Mas tenho medo da sua reação. Não sei se ela vai rir daquele jeito que tanto me assusta; ou se vai me olhar com aqueles olhos congelantes; pior se ela não disser nada, será o fim.

Mas não sei porque lhe tenho medo, afinal, os homens não têm medo.

Mas se deixo que ela faça isso comigo, quer dizer que eu não sou homem.

Ela, sim, é mulher.

Não sei porque, mas as mulheres sabem fazer-nos sentir menos homens; mas nunca se sentem menos mulher elas, ou pelo menos ocultam muito bem esse segredo.

Ao contrário de nós (ou de mim).

Mas é hora de jogar o medo fora. Ele não pode me vencer.

Nos encontramos em frente a livraria de sempre. Caminhamos na mesma direção. Entramos no mesmo restaurante.

Mas dessa vez sentamos em outra mesa.

Pedimos um café.

Ela abre seu livro (o de sempre); me pergunta o que acho de tal poema; lhe respondo qualquer coisa, afinal, ela sempre terá opinião melhor.

Ela fecha o livro; o garçom deixa os cafés.

É agora. Vai acontecer. Mas agora eu sou homem.

Mas ela é mais mulher…

Boa noite, meu amor, amanhã nos veremos no mesmo lugar, faremos as mesmas coisas; mas não importa, ainda que eu te ame menos amanhã, você me vai amar por igual.

sábado, 30 de maio de 2009

Dor


Suave...
Distante...

Enleva meu corpo e assassina minha alma.

Me faz rir e, logo, chorar;
Me dá prazer e, entao, ódio;
Transcende meu espírito e me faz imortal.

Mas a dor é humana,
Nao existe para uma alma sem vida.

Morre o espírito,
Morre a alma,
Mas nao sou imortal;

Meu corpo me ressuscita,
Me reanima e me sopra a vida.

Distante e suave...