quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

amor


finalmente senti meu bem
talvez não tenha entendido
mas foi forte
estranho e forte
intenso

foi como se nada fizesse sentido
mas tivesse um significado
tudo era novo e já bastante conhecido
apesar da angústia foi alegre

tive medo
não sabia o que fazer
é assim? sentir isso é o que se esperava?
não tenho certeza
e não creio que alguém possa ter respostas para mim
mas foi suave

a aflição foi grande
um golpe duro no peito
sangrou a alma e feriu o espírito
como pode ser dor se é amor?
esse horror que assombra o homem mas não lhe causa temor
seria ele impune à dor do coração?
talvez tenha já cauterizado a ferida primeira

dizem que os anjos não podem amar
e têm inveja do homem por isso
como podem ser tão tolos os anjos?
ou talvez os tolos sejamos nós por os não invejar
eles desejam na sua ingenuidade
mas nós deixamos de desejar sua ingenuidade na ignorância

este é o nosso princípio e o nosso fim
nascemos do amor e estamos predestinados a ele

em nossa pequenez
nos enaltecemos
podemos ter tudo mas esse tudo é nada
nos enganamos e fingimos não saber que estamos enganados
achamos que é menos doloroso
talvez saibamos da nossa mentira

mas não ousamos anunciá-la

resta-nos amar
apesar do amor amar

viver a nossa essência
sabendo que por ela pecamos
talvez ela seja o nosso pecado
nossa corrupção

não é imortal mas chama
e é infinito enquanto dura

uma dor intensa e sem fim
está em mim
sou eu
e está em você
nas suas pupilas azuis

não entendo meu bem
e não importa que o compreenda
basta sentir (você)

sábado, 24 de dezembro de 2011

El llanto


No lloré lo que no pude decir
Ahogué todo el dolor que no pude sentir
Callé el suspiro que por poco me desvelaría

Y la aflicción creció y marchitó, poco a poco, mi corazón

sábado, 5 de novembro de 2011

Ego


Não se pode chegar a dizer que se conhece bem. Nunca se chegará ao pleno conhecimento de si mesmo. Jamais haverá alguém que saiba dizer o que, de fato, é. Ser implica não saber. Se, acaso, se sabe, não se é. O que já Alberto Caeiro vivia: só se é ao simples feito de ser e nada mais. Não há o que buscar, não há o que questionar, não há o que entender. Ser vale por si só.

Mas, então, o que buscamos, insistentemente, entender? Se não podemos saber a nós mesmos, tudo o que procuramos conhecer é em vão. É vão. A nossa existência é vã. Nós somos vãos. Tudo é vaidade. Por isso simplesmente ser. Carpe diem.

Nossa razão é, deve sempre ser, talvez, nossa esfinge. Devemos temê-la, não fazer-nos maior que ela. Se a razão de nossa existência é simplesmente ser, somos nós mesmos a nossa razão. Assim, devemos temer a nós mesmos. O medo. Quem sabe assim paramos de tentar chegar aonde não devemos.

Se somos e temos medo de ser, ou de chegar a saber o que somos, sendo nós nosso próprio medo, eis aqui nossa essência: tudo o que somos não tem outro motivo ou motivação que o simples fato de poder ser. Isso deve-nos bastar. Tentar ir além do ser é ir além de nós mesmos. É romper, violar nossa liberdade. É aprisionarmo-nos num labirinto de nós mesmos. É perder-nos em nossa essência. É ser sem poder ser.

E, então, contrariamente, contrariadamente obstinados, viveremos a incansável busca de nós mesmos.

Não podemos interromper esse ciclo. Nós, a linguagem. Uma roda que não para de girar sem mesmo haver começado seu movimento. Assim somos, seremos, fomos. Fora do tempo e do espaço. Sem certeza de alguma coisa. Ser hipótese.

E, por isso, a questão, a dúvida, a incompreensão, a incógnita:

Ser?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

vou ser

seu toque suave a percorrer meu corpo
seus olhos a buscar em mim o segredo
seu sorriso
sedutoramente cativante
a romper em mim toda uma paixão

sua pele suave
ao tocar-me
me faz vibrar, tremer, desfalecer

ao deitar em mim seu olhar
vagarosamente
vou-me esquecendo de que vivo, de que há mundo

quando atingido pelo sorriso de seus lábios
já não existo
e tudo em mim morre e nasce a dor do querer, a insanidade

porque não há maneira de ser
se para ser dependo do seu ser
e sendo, em mim não sou
mas sou-me todo em você

e minha completude tampouco existe
se não há
em você
a razão do meu existir

se para me constituir, devo ser
e se para ser, deve, você, existir
sou se você existe
e se não existe você, não há eu e não há nada mais

insano
louco
sem juízo
apaixonado

eu eu eu eu

você
 

nós da complexidade da vida no momento em que
atacado pela essência
percebo a inexistência de uma coerência
incongruência de ser

e amar
e então amar
e assim amar
e ainda amar
e com tudo amar

e viver
e vi ver meu ser seu existir
e viver minha incompletude
sendo ser

mas em você volto a ser

(loucura e paixão)

pois só e somente
podemos ser