domingo, 28 de setembro de 2008

Lágrimas

A rua ainda trazia sinais da leve chuva que caiu durante a noite. A relva, úmida, brilhava aos primeiros raios de sol; o solo exalava o odor fresco do orvalho. Uma leve brisa corria pelo ar, causando-lhe calafrios. Como seria bom estar em casa, aquecendo seu corpo junto ao dela. Mas há meses não sabia a cor de seus olhos, o aroma de seus cabelos, o calor de sua tez, o suave toque de seus lábios.

Ele para em frente aquela que, um dia, fora sua casa. É cauteloso, não se deixa se ver. Observa fixamente uma das janelas. Percebe um vulto; sabe que é ela. Segue caminhando pela rua. Seus olhos passeiam pela paisagem que da sua frente foge. Um cão se esconde embaixo do banco; nem parece ver o gato que, cuidadosamente, por trás de si, caminha tranquilamente. Não se importa, só deseja não sentir todo esse frio. O garoto na esquina busca, atento, aos leitores que, mais por rotina que por interesse, correm os olhos sobre as manchetes. Aos poucos, os carros enchem as ruas, os pés atrasados somem pelas portas, os guarda-chuvas se atropelam nos ônibus.

É tudo como sempre será. O ciclo continua. Os homens, máquinas que fazem o mundo girar, nunca mudarão. Mas nem sempre foi assim. O mundo não era esse composto de engrenagens fixas, prontas para girar e cumprir sua simples função de não deixar parar o mundo.

Apesar de tudo, ele ainda vê que o sol continua a brilhar. O orvalho ainda reflete em seus olhos os pequenos e fugidios raios de sol. O calor ainda penetra pela sua pele, fazendo-o sentir a manhã. Ele ainda sente o suave cheiro da terra. Seus olhos, então, repousam sobre a triste figura daquele animal.

Seu olhar melancólico alcança aquela figura parada a olhar pra ele. Seus olhares se cruzam, como se partilhassem a mesma dor. Seus olhos acompanham os sofríveis passos, até que se percam na esquina. Antes de sumirem por completo, uma última olhada. Sim, é um olhar mais que de compaixão, de cumplicidade.

Seu pensamento, então, voa, não muito longe. O olhar daquele cão lhe devolveu o sentido. Ele, finalmente, pode compreender. Antes de virar a esquina, mais uma vez volta-se para o pobre animal. Não somente o cão, ele observa, também, o caminho percorrido daquele banco até aqui, nesta esquina. O mais longo caminho já percorrido.

Seu espírito, agora, mais vivo, mais alegre. Finalmente o sol lhe enche todo o corpo; na mais bela sinfonia o canto dos pássaros lhe envolve a alma; o cheiro da terra sobe por suas narinas como um inebriante perfume; em suas pupilas as cores do dia brincam; também o ar, agora ele pode sentir, tem o sabor do néctar.

Suas pernas o levam para casa; a sua casa. Ele ouve a campainha. Ouve passos. A porta se meche. Extasiado, não consegue dizer uma palavra. A porta ia se fechar, mas seu braço a impede. Ele olha, profundamente, para aquele brilho, bem conhecido, mas que agora brilha por outro motivo. Ainda as palavras não saem. Ele tenta, com o olhar, reacender a chama daquele coração que um dia fora seu. Ele percebe que o brilho muda; o olhar muda. A porta não mais quer fechar. Sente que a chama se reanima. Fria, uma lágrima rolava pelo seu rosto e caía pelo seu queixo. Outra lágrima, então, cai. Mas as lágrimas não são pela mesma chama.

A porta se fecha, fazendo o mundo cair em pedaços...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"Beautiful bird could fly..."

Na vida, às vezes, nos deparamos com situações que nos fazem refletir... acerca de nós, acerca das coisas que nos cercam. Encontramos, muitas vezes, pessoas que se tornam mais que especiais. Às vezes nos sentimos tão só e abandonados que um simples sorriso de um estranho colore o nosso dia. Somos, algumas vezes, surpreendidos por achar beleza no simples ato de ver uma criança brincando na sua inocência. Tudo isso, e um pouco mais, reflete a nossa capacidade de olhar o mundo de maneiras diversas. Nos sentimos pouco sensíveis em determinados dias, mas em outros, já nos emocionamos com o desabrochar de uma rosa perfumada no jardim alheio. Hoje pode ser que não tenhamos vontade de sair de casa, pra não enfrentar o caos, mas também pode ser que estejamos afoitos para poder admirar as cores e os aromas do dia.

Nossa poesia muitas vezes se esconde. Aí, sentimos a necessidade de tê-la agarrada junto a nós, para que nunca percamos a graça de ver o mundo. Se todos os dias, todas as pessoas saíssem de casa sem a sua poesia, a vida seria todam em preto-e-branco; ninguém se importaria em ajudar alguém, ninguém se respeitaria, a natureza seria logo banida do nosso mundo. Mas, também, se todos, todoso os dias, saíssem às ruas para admirar a beleza de uma folha sendo carregada pelo vento, nada teria sentido. Seria tudo motivo para admiração, sem reflexão.

Precisamos aprender que há poesia em um singelo gesto, mas que, também, não vivemos em um conto infantil, onde todos os desejos são saciados. Na vida há, sim, momentos em que só o olhar pode traduzir um gesto, uma expressão. Mas esse olhar não pode ser apenas de admiração, ele precisa de uma reflexão para ganhar sentido em nós. Refletir é quando pensamos na vida e no mundo e aplicamos a nós aquilo que julgamos conveniente. É sempre após a reflexão que vem a mudança.

Pode-se mudar qualquer coisa. Basta ver a necessidade e querer mudar. Com a poesia vemos a vida e observamos tudo o que ela nos oferece; então, refletimos naquilo que vimos, sentimos a reação em nós e, assim, enxergamos o que precisa ser mudado e o que precisa ser desvendado. Descobrimos o mundo com a poesia, mas é na reflexão que tornamos esse mundo propriedade nossa.

Precisamos aprender que um pássaro não foi criado para no chão, por mais que ele necessite tocar o solo. O pássaro é uma criatura feita para voar... Voar alto, alcançar lugares inexplorados e desconhecidos, chegar até as montanhas, ir além das nuvens. Não se aprisiona um pássaro... "beautiful bird could fly..." beautiful bird need fly...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A Árvore


Olho pela minha janela e vejo, como num quadro, uma única árvore; sozinha, única. A copa é a única coisa que consigo ver, mas eu sei que além das folhas existem os galhos, o tronco e a raiz que constituem essa árvore. Ela não é muito grande, por isso uma leva brisa consegue balançá-la toda, fazendo-a um corpo vibrante que dança ao som do vento. É, naturalmente, um ser inerte, mas, quando começa a dançar ela parece querer se desenraizar, ganhar liberdade; mas o vento pára e ela volta à sua imobilidade; até que então ela ganha um novo estímulo e começa a dançar novamente almejando maior movimento.

Suas folhas são como um manto verde que a cobre por completo, apenas os pontos vermelhos de seus frutos podem ser visto. Essa sua veste lhe dá um ar de elegância, o que me chama bastante atenção, já que ela deveria ser como as outras árvores; mas ela é diferente. A parte superior de sua copa é quase bem definida, como uma bola de sorvete. Algumas folhas de tonalidade clara aparecem na parte mais exterior da folhagem, essas são as que mais despontam para fora do limite (o da poda) e dão à vestimenta um “design moderno e sofisticado”. Seus frutos estão sempre agrupados entre si, como um pequeno emaranhado vermelho, o que me possibilita vê-los; eles são como pequenos enfeites de natal, se destacam no meio desse mundo de folhas. Sua capa verde se prolonga até o chão, desce afunilada em volta do tronco ocultando-o dos meus olhos, mas não da minha imaginação.

Apesar desse seu traje elegante, ela é solitária. Está localizada em um quadrado limitado por uma cerca viva, um pequeno espaço onde ninguém pisa, é o espaço da árvore. Ela tem este privilégio que muitas outras não têm, um espaço só dela (será por isso que ela é tão bela?). Ela reina só neste espaço, só ganha companhia quando um jardineiro vem ajustar suas vestes, mas, fora isso, ela brilha no meio da solidão, mesmo quando ninguém percebe seu brilho. Ela passa o dia inteiro dançando ao som do vento, irradiando beleza através de seus movimentos curtos e rápidos, mas sua platéia não a percebe e muitas vezes a ignora.

Suas folhas, seus galhos, seu tronco, sua raiz, tudo isso a faz ser o que é; esse conjunto forma um ser diferente e único que suaviza a desgraça dos homens através da simplicidade do seu ser. Um ser que me causa inveja, pois ela é indiferente a tudo em sua volta, nada lhe ofusca o brilho, nada lhe aborrece (mesmo porque ela é um ser desprovido de consciência).

Sua única função é ficar plantada naquele lugar, mas se ela não existisse o mundo seria diferente, ou talvez um outro ser realizaria sua função; se fosse isso verdade, ela não teria sentido, não significaria nada. Mas, ela está ali realizando sua função, não se importando com questões impertinentes à sua existência (mas nós, infelizmente, gastamos tempo com questões como essa). Na verdade, mesmo se ela pudesse se “descabelar” com indagações assim, sua beleza não mudaria: ela não deixaria de ter suas folhas verdes lustrosas, não deixaria de estar elegante não importando o dia ou a hora, não deixaria de balançar ao ritmo do vento. Esta linda planta está sempre do jeito que deveria estar, nunca mais ou menos bonita.

Tranqüilamente ela passa o dia todo dançando, esperando chegar o próximo dia, e assim ela nunca descansa, estará sempre a esperar o dia seguinte, mexendo suas folhas num ritmo lento, às vezes mais rápido e movimentos curtos. Todos os dias poderei olhar pela janela e contemplá-la com todo o seu movimento envolvente, decifrando-me o ritmo do vento.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sede de Grandeza


O tempo não pára!

Somos em todo momento engolidos por essa enorme força que move o mundo. Somos arrastados do ontem, empurrados pelo hoje e lançados para o amanhã; e estamos sempre iludidos com o tempo.

Ao tempo alia-se a ansiedade do homem. Andamos sempre ansiosos com o que fazer. E até mesmo com o próprio tempo. A ansiedade nos faz querer ser maior que o tempo e, assim, controlá-lo. Até parece que ele é nosso inimigo. Ao contrário, o tempo está aqui (aí e em todo lugar) para nos ajudar. É ele a lembrança do que passou, que nos ajuda a compreender o que fazemos hoje e também a medir (até certo ponto) as conseqüências disso.

O homem moderno tem em si uma vontade (que não sei até que ponto é inata ou adquirida com as vivências) de querer ser maior que tudo. É uma vontade incontrolável e causa da ansiedade. E é essa ansiedade que causa a esse homem moderno a impressão da falta de tempo. Ilusão. O tempo não se esgota, o homem sim. O homem moderno, quando se esgota, se encontra no limite da razão. Ele não vê o que lhe causa esse esgotamento; só o que vê é que o amanhã está chegando, e com ele o fim (dele mesmo). O homem, então, ser perfeito que é, pensa que o tempo está se adiantando, esquecendo-se de seu senhor. Limita-se a olhar para trás e lamentar pelo que o tempo o fez deixar passar.

Carregando em si o peso daquilo que não foi feito, o homem moderno busca, no dia de hoje, fazer mais do que poderia ter feito ontem, para alcançar mais do que poderia ter alcançado para hoje. A própria vida se acha confusa por causa da ânsia do homem moderno. Tentando ajustar tudo, ela é posta, ao lado do tempo, como bode expiatório do fracasso humano. Também a Natureza é inferior ao homem moderno. Para a sua sobrevivência o homem moderno ignora a própria raça. Para ir além de sua perfeição é necessário que o homem moderno esteja acima do tempo, da vida e da natureza.

Conseqüência da insanidade do homem é o sistema. O sistema o ajudaria a chegar à suma perfeição. A criatura se tornou maior que o criador. O feitiço virou contra o feiticeiro. O homem moderno é dominado pelo sistema. Ele lhe impõe metas e prazos; tudo para chegar à própria perfeição, à infalibilidade. O homem moderno é agora insignificante. É o combustível do sistema.

Vivendo no e para o sistema, o homem moderno acha-se mais sobrecarregado. A aflição o domina e o stress o circunda. O homem moderno rapidamente se esgota. Precisa estar longe do sistema. Mas ele é preso. O sistema lhe suga toda a alma. Pobre e ingênuo homem moderno! Sofre as conseqüências de sua loucura.

Aprenda que, com a vida não se brinca. Respeite a natureza. Não tente ser maior que o tempo. Entenda que, ser perfeito nem sempre significa ser maior. Ao seu lado agora, se faz necessário o ócio. Somente o ócio pode lhe tirar desse afogamento. Mas não se perca nele. Trabalhar é preciso. Infelizmente, ao ócio se alia a tolice. O homem moderno é o ser mais tolo da face da Terra. Ociosidade e tolice agora são características necessárias ao homem.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Pare um momento e reflita...

ATITUDE!!!


Não dá pra ficar parado enquanto mil coisas acontecem no mundo...

Às vezes nos desculpamos dizendo que isso não tem a ver conosco, não é nossa responsabilidade, deixa que outros façam... Assim não dá! Pior que ver e não fazer nada é passar a responsabilidade para outros. Se está em nossas mãos, façamos; se está ao nosso alcance, não deixemos para outros fazerem; se vimos, é nossa responsabilidade. Não vale dizer que não damos conta, que isso não é pra nós, que já estamos muito ocupados pra isso, que não temos tempo, que isso não é importante...

Mas do que será que ele tá falando??

De tudo! Do mundo, da vida, dos amigos, daqueles a quem você pode dar uma mãozinha, de você mesmo, de nós mesmos...

Esse fim de semana participei do CONJUBAC (Congresso da Juventude Batista Central), cujo tema foi: "Chega de blá, blá, blá... atitude fala mais alto". Esse congresso me mostrou quanta coisa eu poderia ter feito, mas, por causa do meu blá, blá, blá, deixei de fazer. Muitas responsabilidades foram deixadas de lado por pensar que não era importante. Mas uma coisa eu aprendi: não existe nada que esteja às minhas mãos que não seja importante. Decidi mudar, tomei uma atitude.

Hoje, estou compromissado com tudo e com todos. Tudo o que me vier às mãos para fazer, farei conforme as minhas forças. Parei de blá, blá, blá, minhas atitudes falarão mais alto. Mudei, continuando o mesmo. Acrescentei a mim o que precisava. Minha vida mudou... vivi uma virada...

Hoje, trago aqui essa experiência para que todos vejam esse incrível transformação de vida pela qual eu passei. É emocionante quando passamos por renovação, não uma renovação religiosa, mas uma renovação de vida, deixando atos falhos, tomando atitudes novas, estabelecendo metas e compromissos com nós mesmos. Viver diferente é isso. É se renovar a cada dia, viver a renovação. Limpe suas falhas com suas lágrimas, busque novas atitudes, fuja dos velhos atos e ajude-se a si mesmo, servindo aos outros.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sentimento Humano


É um das sensações mais difíceis de se compreender. É o sentimento mais nobre do homem. É imensurável e infinito. Não temos uma definição exata dele. Camões disse que ele é “contentamento descontente”; Paulo, o apóstolo, o exaltou sobre a fé e sobre a esperança, sobre todos os dons e a declarou acima dos anjos. Mas a metáfora mais bela acerca dele é a que o apóstolo João declara: “Deus é amor”.


Poderíamos soltar aqui essa frase e deixar que o leitor reflita sobre essa metáfora. Uma metáfora simples, mas tão complexa e tão bonita que me arrancará algumas linhas. Ela se aproxima daquela outra, também muito conhecida, que diz que Deus é a essência do amor; mas é maior que ela. “Deus é amor” nos diz que o amor é essencial para a vida, o maior de todos os sentimentos. Diz-nos que o amor é um sentimento transcendental.


Quando dizemos que amamos uma pessoa, na verdade, estamos dizendo àquela pessoa que ela faz parte da nossa vida, que ela é importante para nós, mais que nós mesmos. Amar é renunciar a si mesmo, viver em prol do outro. É estar ao lado nos momentos alegres e tristes. É se compadecer, suportar, auxiliar. O amor é, ainda, o sentimento que mais contraditório, pois, se amamos, sofremos; mas, ao mesmo tempo, nos alegramos com esse sofrimento, porque sabemos que no final está a felicidade.


Mas sabemos recitar de cor e salteado essa definição utópica(?) do amor. Vamos à realidade. Em pleno século XXI, como o amor é praticado. Será que ele continua o mesmo? A resposta é clara e óbvia: não. É impossível afirmamos que hoje o amor é concebido da mesma forma que nos séculos passados. Com o tempo tudo muda, nada é como era, nem será como é. Hoje a vida agitada e sempre atrasada impede que amemos com a mesma intensidade que amaríamos se vivêssemos no século passado, por exemplo. O amor está nas músicas, nas poesias, nos romances e até nas novelas e programas diversos da TV, mas não o praticamos. Contentamo-nos com a teoria e não nos esforçamos na prática.


Praticamos algo que achamos que é amor, mas se aproxima muito da idéia de ‘consideração’. Consideramos uma pessoa, a achamos legal e interessante, então nos iludimos com a idéia de que a amamos. Alguns sabem que não amam, mas ficam (em todos os sentidos) com uma pessoa porque não quer ficar sozinho, enquanto seus amigos todos têm uma companheira. O amor se tornou conveniência. Não precisamos amar verdadeiramente uma pessoa para dizer que a amamos. A sociedade perdoa essa hipocrisia, pois reconhece que não há tempo para esperar um verdadeiro amor. Assim, saímos a procurar alguém que se encaixe em uma idéia de pessoa boa para ser amada e nos entregamos a esse pseudo-amor, o amor moderno.


Mas, mesmo se ainda não encontrarmos tempo para procurar alguém legal, não nos aflijamos. Há alguém capaz de encontrar a pessoa ideal para nós. Basta digitar algumas características e pronto, uma lista com vários nomes nos aparece. É só escolher um deles e torcer para que aquelas informações ali depositadas sejam verdadeiras. É o comércio do amor. Você vende seu amor, ou compra o dos outros. Mas o pagamento não com dinheiro. Você paga com seu tempo (preço mínimo); alguns acabam pagando muito mais caro, com sua ignomínia, às vezes até com a própria vida. Estes são os que não souberam escolher bem o produto e acabaram sendo lesados, mas não encontram nenhum PROCON onde reclamar a propaganda enganosa.


A Internet é uma arma perigosa. Ela ajuda muito, sem dúvida, mas temos que saber utilizá-la com cuidado e competência. Na matéria do amor ela se diz profissional. Alguns acreditam e depositam nela toda a confiança de uma boa transação sentimental. Outros desconfiam, mas acabem cedendo. Há uns poucos que sabem que não é isso que precisamos e se lançam na busca sozinhos.


A sociedade não sabe mais, ou não quer mais saber, amar. Nossas relações interpessoais estão ótimas, para quê complicar mais?! O amor nos faz bobos e inofensivos. Perdemos a ferocidade necessária hoje. Tornamo-nos mais mansos e compreensíveis. O amor nos eleva à condição de seres emotivos, fazendo-nos perder um pouco da racionalidade animal (não no sentido pejorativo). O amor nos torna mais humanos.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ver




Olhar, ver, desvendar, deslumbrar, contemplar. Substantivos que nos fazem logo lembrar a visão, ou, antes, os olhos. Viver é, essencialmente, sentir o mundo. A visão é mais do que um modo de sentir o mundo, é um meio de descobri-lo. Aos nossos olhos o mundo se desvenda. A beleza se faz frente o nosso olhar, muitas vezes, desatento. Os jogos de imagens, de cores, de sensações visíveis são sempre fabulosos. Encantamo-nos com a visão que temos do mundo.
É a visão, também, responsável pela poesia que, às vezes, sentimos. Quando ficamos extasiados perante uma visão, quando admiramos com euforia uma paisagem, quando algo que vemos nos tira o fôlego e nos faz esquecer tudo por um breve instante, estamos apreendendo-lhe a poesia. Nossos olhos são capazes de captar a poesia em um simples olhar, num olhar mesmo que desatento. Mas a poesia é fugidia. Ela escapa fácil e não nos deixa capturá-la. Assim, nossos olhos se cansam, pois a poesia não mais está ali onde miramos. Esse instante pode ser um breve segundo, mas também pode se estender por longas horas; e isso depende de nossa disposição em apreender a poesia.

Sentir o mundo é algo exaustivo. Depende de separarmos tudo o que pode causar dano à beleza. A poesia está aí, na ausência da destruição, na inocente visão do mundo, no desejo. Ver a poesia do mundo é tornar-se poeta, mesmo que não exteriorizemos essa poesia nas palavras, é sentir lá no fundo que o mundo pode ser diferente.

São os olhos as janelas da nossa alma. Onde é a porta, não sei; mas é pela janela que, primordialmente, vemos o mundo. Pela janela podemos perceber as coisas sem necessariamente manter contato com elas. Ela nos protege do mundo. Ela nos permite apreender maravilhosas poesias sem o perigo de a influenciarmos.

Ver é um modo de sentir o mundo sem modificá-lo. É como apreendemos a vida sem deixar marcas, somente aquelas que se fazem em nós mesmos. A visão possui várias perspectivas, é aí que está a efemeridade da poesia. Cada momento que nos detemos em apreender a poesia da visão, capturamos um aspecto infinitamente menor que o todo. A cada instante uma parte se nos mostra e, aos poucos, vamos adquirindo a noção do todo, sem nunca chegarmos à completude dele. Ver é uma arte que nos ensina a viver; é uma arte incompleta, que vai se fazendo a cada olhar, mas nunca se esgota.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Arte de Ler





A palavra que eu leio (lego: colho), na sua ingrata renitência sobre a página do livro, desafia-me como a pergunta da Esfinge. A resposta pode variar ao infinito, mas o enigma é sempre o mesmo: o que quero dizer?

Ler é colher tudo quanto vem escrito.

(Alfredo Bosi, A interpretação da obra literária.)




Falar de leitura é falar de experiência. Cada leitura é uma nova experiência. Cada nova experiência se transforma, então, em frutos que vão se amadurecendo na medida em que damos sentido para ele em nossa vida. Ainda crianças, admiramos a grandeza do mundo, nos emocionamos com a infinidade de coisas que nos são apresentadas; entretanto, quando nos encontramos com a literatura, embora não saibamos seu significado, ficamos intrigados com um mundo maior do que aquele em que vivemos; entramos em um mundo misterioso e é esse o sentido que damos ao mundo do livro.

Minhas primeiras leituras foram recheadas de figuras que me ajudavam a divagar no imenso mundo imaginário da literatura. Por mais que eu não compreendesse muito bem o que as letras significavam, o livro, ou melhor, a literatura em si ganhava um sentido em minhas mãos e, então, a história acontecia. Não me recordo de uma história sequer que eu tenha lido, mas eu me lembro da sensação que eu tinha toda vez que eu abria um livro. Era como se uma nova realidade se construísse na medida em que eu ia significando as letras e as gravuras. Eu adorava estar com um livro nas mãos, era uma sensação bastante agradável (e até hoje essa sensação é despertada em mim toda vez que eu abro um livro de literatura).

Com o passar do tempo e meu desenvolvimento intelectual, minhas exigências literárias foram se transformando. Passei pelos contos infanto-juvenis, pelos romances infanto-juvenis (até aí, somente autores brasileiros); descobri, então, os romances de aventura, os policiais e os autores estrangeiros. Agatha Christie ocupou por um bom tempo minhas preferências, Conan Doyle também passou pelo meu gosto. Experimentei os romances russos (me agradaram); tentei Dostoievski, mas era cedo demais; e, assim, minhas leituras passaram a ser bem variáveis e eu procurava sempre um estilo inédito. Então, me encontrei com os clássicos brasileiros. Sem dúvida, foi uma das melhores experiências que eu tive na vida. Foi quando meu gosto pela literatura se acentuou e eu comecei a experimentar os livros contemporâneos, sempre variando nos estilos.

A literatura entrou na minha vida bem cedo e eu sou muito grato por isso ter acontecido. Uma experiência com a literatura é a experiência que todos, desde os infantes até os mais maduros, necessitam. O problema é que nem todos conseguem ver essa necessidade. Muitos acham que os livros alienam as pessoas. O que elas não sabem é que a literatura nos ajuda a compreender e perceber o mundo a nossa volta. É claro que uma criança não vai chegar a essa conclusão ao ler um livro, mas, após lê-lo, a criança constrói em sua mente uma percepção/compreensão do mundo que a rodeia comparando-o àquele mundo que ela encontrou na literatura.

Sempre dediquei parte do meu tempo à leitura de uma boa literatura, e, isso, graças ao desenvolvimento “precoce” do costume da contínua descoberta do mundo. Hoje, o que me impulsiona ler mais é o fato de que a cada leitura eu vou me construindo. Cada experiência me faz apreender o mundo real e, ao mesmo tempo, me leva para longe dele. Mas é justamente aí que está, para mim, a função primeira da literatura (não necessariamente a mais importante): fazer-nos reconhecer nosso mundo através de outra dimensão, de outro, digamos, cosmos. Somos levados a um mundo paralelo para que possamos conhecer, no sentido mais simples da palavra, o mundo real. Isso pode soar um tanto místico, mas é justamente assim, misteriosa, que a literatura me aparece.

“Ler é colher tudo quanto vem escrito.”. Ler é perceber o mundo nas letras. É se conhecer e se construir. É se colocar no mundo. É uma experiência indescritível e única. Por mais que tentemos descrever uma experiência de leitura, nunca conseguiremos descrever a verdadeira sensação que a literatura nos causou naquele momento, e, ainda, por mais que leiamos a mesma literatura que lemos ontem, ela não é a mesmo e, principalmente, você não a reconhece como a mesma. Ler é uma arte, única e irrepresentável.