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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Conto da Ilha Desconhecida


O homem, a mulher da limpeza, o rei e o capitão do porto. Um barco para ir à busca da ilha desconhecida. Uma viagem sem destino, uma embarcação velha e sem tripulação. Uma história. Um conto de Saramago. Não é preciso muito para que nos entreguemos a esse fantástico autor. São necessárias poucas linhas para que nos vejamos imersos em um mundo ao mesmo tempo distante e tão próximo de nós mesmos. Uma leve narrativa, mas uma profunda reflexão.

Um homem chega à porta do rei para lhe pedir um barco. Para quê um barco? Para ir à busca da ilha desconhecida. Um pedido estranho para um objetivo mais estúpido ainda. Mas o rei não lhe nega. No cais o barco lhes espera, a ele e a sua nova companheira, que até então trabalhava no palácio, mas se apaixonou por esse plano de viagem (não só pelo plano). O dia foi para limpar o barco, encargo da mulher, e para alistar marinheiros para a viagem, frustração do homem. Sozinhos, sem experiência, sem destino, mas com um propósito, é suficiente.

A noite sempre nos traz surpresas. Não será diferente aqui. Um sonho. Uma viagem. Um encontro. Mesmo no sonho ele ainda enfrenta obstáculos. Um caminho desconhecido precisa ser percorrido. Mas ele não pode se desviar. Paciência deve estar sempre em seu sustento. No final do caminho o destino. O desconhecido, porém, não está mais ali. Um novo caminho precisa ser pensado para que um destino possa ser avistado.

A aurora desponta. Mas não vem sozinha. Com ela a certeza de que é preciso uma viagem confirma-se. O casal faz os últimos ajustes no barco. Pronto o Ilha Desconhecida está navegando pelas águas traçando seu destino. Numa viagem necessária a todos nós.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Se una notte d’inverno un viaggiatore


Falar de uma experiência literária é uma tarefa bastante complicada, já que a leitura é uma atividade extremamente subjetiva; e discorrer sobre uma leitura pode comprometer não só o próprio livro como também seu autor e até mesmo seus leitores. Sendo assim, o que me proponho fazer aqui, não é uma leitura, e sim expor um efeito de sentido que uma leitura causou em mim, um simples, mas ativo leitor. O livro em questão é Se um viajante numa noite de inverno, Ítalo Calvino. Não há como duvidar da beleza do livro, tendo em vista seu próprio autor. Calvino é um dos melhores autores que eu já tive a oportunidade de ler. Creio que não preciso dizer muito dele, então passemos à sua obra.

Se um viajante numa noite de inverno é um livro que trata da própria leitura. É um livro diferente de qualquer livro que eu já tenha lido, a começar pela personagem, que é o próprio leitor. É a história de um leitor que adquire um exemplar de Se um viajante numa noite de inverno, passando por uma incrível aventura por causa desse livro, encontra-se também com uma leitora (a quem o narrador, no meio do romance, dá voz, passando ela a ser, se é que podemos dizer assim, a protagonista) e enfrenta vários obstáculos para poder terminar sua leitura, impedida por motivos de editorações e falsos autores. É um romance incrível que, como o próprio narrador diz, nós não conseguimos parar de ler até chegarmos ao seu final.

O interessante desse livro é que o primeiro exemplar do livro que o Leitor começa a ler está defeituoso, ele volta à livraria e descobre que é um problema com todos os exemplares disponíveis. Começa então sua jornada para terminar a leitura, mas a cada exemplar que ele adquire pensando terminar sua primeira leitura, ele inicia um novo romance. E nós leitores o acompanhamos em toda sua caminhada, lendo com ele todos os romances que lhe vêm à mão. Compartilhamos com ele a ânsia, a vontade de terminar todos os romances que começamos. Aventuramo-nos com ele em cada situação louca pela qual ele tem de passar. O interessante é que não conseguimos abandonar o romance na metade, pois procuramos encontrar, a cada página que se passa, o final de cada romance que o Leitor começa a ler e o romance do próprio Leitor.

De um modo particular, esse livro me faz refletir sobre a atividade da leitura. No final do romance ainda pude perceber algo fundamental para qualquer leitura: o que importa, não é o final, e sim os meios pelos quais chegamos até o final. O romance termina como um “viveram felizes para sempre”, e isso me fez enxergar a importância de todo o romance, não apenas seu final. A verdadeira leitura é aquela que se prende aos “como”, e não aos “o quê”. Ítalo Calvino consegue, através de um romance, me fazer refletir sobre uma atividade que comecei a praticar sem a mínima noção do que ela significava. A cada romance inacabado, a cada etapa que o Leitor passava, eu me identificava com essa personagem. No final eu era o próprio Leitor, refletindo sobre minhas leituras.

Se um viajante numa noite de inverno é um romance que todos os leitores deviam ter em seu currículo, pois ele é uma reflexão que nós precisamos fazer das nossas leituras. Ser levado a fazer uma reflexão foi, pra mim, o ponto mais alto desse romance, e admito que, levar o leitor a uma reflexão é uma tarefa bastante complicada para um autor; é por isso que eu admiro Calvino. E eu confirmo, devemos refletir, todos os dias, sobre a nossa leitura, pois, além de nos tornarmos mais (auto)críticos, ganhamos uma experiência que vai valer pra toda a vida.