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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Primeiro amor


O piano reclamava, ao longe, melancólicas notas de um blues. Melancólica, sua alma insistia em perambular languidamente pela escura noite. A brisa batia levemente em seu rosto o orvalho dos últimos minutos daquele costumeiro dia. E ele voava.

Longe, seu pensamento vagabundeava por cantos remotos. Uma memória, um desejo... Não caminhava pelas ruas do centro, coberta pela sujeira de inúmeros sapatos que ali despejavam segredos. Não sentia o mormaço que, maviosamente, se desprendia do asfalto e se perdia no frescor daquele final. Não ouvia o ruído da cidade, o ronronar dos prédios, o murmurar das paredes, que, teimosamente, postergavam o ócio. Não. Ele não era urbano. Não naquela noite. Não depois daquele difícil tarde. Não depois daquela incógnita manhã.

Tudo começou na noite anterior. Ele havia ido jantar com a companheira da vez. O último. Dessa vez tudo caminhava bem. Ele conseguira acertar, na maioria das vezes, os protocolos de um bom relacionamento. Saíam todos os fins de semana para apreciar o pôr do sol. Durante a semana, encontros casuais. Às vezes um almoço, ou, então, um rápido café. Quando o tempo apertava a maratona, se viam no happy hour. Mas as quintas eram sagradas.

Toda quinta ensaiavam a vida conjugal. Sempre na casa dele, que na dela não havia espaço para brincar com os filhos. Tratavam de trivialidades. Falavam do trabalho, de alguma reunião na escola de uma das crianças. Eram quatro. Certa vez, se imaginaram avós. Sempre terminavam na cumplicidade de dois velhos companheiros, sem intimidades, mas numa profusão de sentimentos.

Ele havia sido um bom amante. Burocraticamente lhe enviava flores quando do seu aniversário, também no dia dos namorados. Nunca esqueceu o primeiro encontro. Adivinhava seu humor e apreciava seu sorriso. Escrevia poemas e os lia no calor da cama perfumada por jasmins. Era intenso, romântico. Ela, apaixonada.
A passos perdidos por não sabia onde, ele revisitava cada palavra, cada sensação. Sem dúvida, ele havia se entregado religiosamente a ela. Ele ainda podia sentir o toque de sua pele, sua boca. O encontro de seus corpos era um arrebatamento. Com que paixão se haviam amado.

Naquele último sábado, antes daquela fatídica última noite, enquanto saboreavam o pôr do sol, sorvendo pecaminosamente a presença um do outro, ele não lhe escondeu seu medo:

- E se nunca mais pudermos ver o pôr do sol?

- ...

- Você nunca pensou se, um dia, você acordasse cega e nunca mais pudesse enxergar a vida!?

Naquela noite se amaram loucamente.

Desde então, não perdiam a oportunidade de um beijo, de um sorriso, de um olhar.

Chegaram assim ao último dia, apaixonados como no primeiro. Dançavam um tango quando o incêndio se agravou em seu peito. Aquela chama ardia e ela pôde sentir como se fosse em seu próprio peito. Foi então que se sufocaram em sua paixão. Ele, enfim, entendeu:

- É assim que é?

- ...

- O amor? É assim? É isso que se sente quando se ama?

- ...

Depois de tantas formalidades, ele finalmente poderia saber como é a aventura da vida. Ele experimentaria, de verdade, a dor do amor. Ele era uma criança com um brinquedo novo. Bobo, começava a entender os anseios da alma. Mas ela, adulta, se feriu com aquela chama.

Perdido, ele caminhava sobre as notas do piano, encharcando-se no orvalho, inebriado pelas memórias, nocauteado pelo amor. Não ouviu os pesados passos por trás de si. Apenas sentiu que o orvalho se adensava em sua pele e a música se desvanecia lentamente. Um frio percorreu seu peito, vindo do coração. O ar foi-se lhe fazendo escasso. Mas ele ainda alcançou a olhar aqueles olhos azuis, sua poesia. Tão assustados, cobertos de lágrimas. Dilacerado o peito, trespassado o coração pela brilhante lâmina manejada por aquelas suaves e desejadas mãos, ele sorriu. Partia da mesma forma como fora concebido: por causa do amor.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Minha vida de volta


Viver já não é mais tão divertido. Em meio a prazeres, improvisos e imprevistos, sempre surge a obrigação de ser adulto. As horas voam e eu não me posso perder nas nuvens. O relógio já denuncia meu atraso. 5 minutos. 10 minutos. 15 minutos. Mas eu só queria ter um pouco mais de tempo para ouvir a música. Crescer é chato. Ter que cumprir prazos é viver na eterna sanidade. Estabelecer metas é acabar com a aventura. Crescer é deixar de ser louco. É ver-se transformado em uma pessoa urbana. Não, não são pessoas: números, estatísticas, engrenagens... Crescer é deixar de ser humano.

Quando ainda minha preocupação era qual lençol daria a melhor cabana, não me importava em ser louco. A felicidade era fácil. Amigos conheciam-se todos os dias. Inimigos... Nem lembro se algum dia tive algum. Quando ainda podia perder meus ouvidos no canto do pássaro, o mundo era mais engraçado. As pessoas me olhavam e sorriam. Eu era notado. Frio e calor eram a mesma coisa: brincadeira. Dentro ou fora de casa.

As lembranças são as únicas que não me abandonaram. Todo o resto foi-se com o tempo. Sorrisos, olhares, paixões, amores, abraços. Tudo ficou perdido em algum lugar da infância. Não voltam. Não querem voltar. Talvez, não queira que voltem. Tive que quebrar o encanto. Conheci o mundo. Esse a que chamam vida. E o meu mundo, aquele verdadeiro, entrou para os livros que eles chamam de estórias, fantasia, ficção. Mas eu juro que é bem real.

Não pode fazer falta. Não posso querer voltar para lá. Afinal, cresci. Não tenho tempo para babaquices. E ainda há os que dizem que, enfim, sou maduro. Maturidade é rir da idiotice dos outros e repeti-las para que eles riam de você. Agora tenho preocupações, de fato, reais. Mas o que realmente importa é se vou sentir aquele aperto no coração ao vê-la, se vou sentir palpitações se ela pegar na minha mão, ou se nossos olhos vão se encontrar. O que importa é se a lua vai se mostrar hoje ou se vai se esconder atrás das nuvens.

Não queria crescer. Ninguém me perguntou. Só cresci e pronto. E agora? Agora só me resta a saudade... A saudade e a esperança... A esperança e a malandragem. Não vou ser adulto. Vou sair desse jogo, cansei dele. Prefiro a loucura e a sabedoria da infância ignorante. Não preciso ser entendido, quero é sentir o cheiro do azul do sol na tarde de inverno. Que as flores me beijem pela manhã e, assim, eu carregue comigo durante todo o dia seu sabor. Quero que os pássaros venham me confessar seus segredos para que eu cante um bolero à beira do mar.

Vou voltar a viver.

E ai de quem tentar me impedir: que os abomináveis homens da neve o enterre nas dunas místicas do Saara...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

amor


finalmente senti meu bem
talvez não tenha entendido
mas foi forte
estranho e forte
intenso

foi como se nada fizesse sentido
mas tivesse um significado
tudo era novo e já bastante conhecido
apesar da angústia foi alegre

tive medo
não sabia o que fazer
é assim? sentir isso é o que se esperava?
não tenho certeza
e não creio que alguém possa ter respostas para mim
mas foi suave

a aflição foi grande
um golpe duro no peito
sangrou a alma e feriu o espírito
como pode ser dor se é amor?
esse horror que assombra o homem mas não lhe causa temor
seria ele impune à dor do coração?
talvez tenha já cauterizado a ferida primeira

dizem que os anjos não podem amar
e têm inveja do homem por isso
como podem ser tão tolos os anjos?
ou talvez os tolos sejamos nós por os não invejar
eles desejam na sua ingenuidade
mas nós deixamos de desejar sua ingenuidade na ignorância

este é o nosso princípio e o nosso fim
nascemos do amor e estamos predestinados a ele

em nossa pequenez
nos enaltecemos
podemos ter tudo mas esse tudo é nada
nos enganamos e fingimos não saber que estamos enganados
achamos que é menos doloroso
talvez saibamos da nossa mentira

mas não ousamos anunciá-la

resta-nos amar
apesar do amor amar

viver a nossa essência
sabendo que por ela pecamos
talvez ela seja o nosso pecado
nossa corrupção

não é imortal mas chama
e é infinito enquanto dura

uma dor intensa e sem fim
está em mim
sou eu
e está em você
nas suas pupilas azuis

não entendo meu bem
e não importa que o compreenda
basta sentir (você)

sábado, 24 de dezembro de 2011

El llanto


No lloré lo que no pude decir
Ahogué todo el dolor que no pude sentir
Callé el suspiro que por poco me desvelaría

Y la aflicción creció y marchitó, poco a poco, mi corazón

sábado, 5 de novembro de 2011

Ego


Não se pode chegar a dizer que se conhece bem. Nunca se chegará ao pleno conhecimento de si mesmo. Jamais haverá alguém que saiba dizer o que, de fato, é. Ser implica não saber. Se, acaso, se sabe, não se é. O que já Alberto Caeiro vivia: só se é ao simples feito de ser e nada mais. Não há o que buscar, não há o que questionar, não há o que entender. Ser vale por si só.

Mas, então, o que buscamos, insistentemente, entender? Se não podemos saber a nós mesmos, tudo o que procuramos conhecer é em vão. É vão. A nossa existência é vã. Nós somos vãos. Tudo é vaidade. Por isso simplesmente ser. Carpe diem.

Nossa razão é, deve sempre ser, talvez, nossa esfinge. Devemos temê-la, não fazer-nos maior que ela. Se a razão de nossa existência é simplesmente ser, somos nós mesmos a nossa razão. Assim, devemos temer a nós mesmos. O medo. Quem sabe assim paramos de tentar chegar aonde não devemos.

Se somos e temos medo de ser, ou de chegar a saber o que somos, sendo nós nosso próprio medo, eis aqui nossa essência: tudo o que somos não tem outro motivo ou motivação que o simples fato de poder ser. Isso deve-nos bastar. Tentar ir além do ser é ir além de nós mesmos. É romper, violar nossa liberdade. É aprisionarmo-nos num labirinto de nós mesmos. É perder-nos em nossa essência. É ser sem poder ser.

E, então, contrariamente, contrariadamente obstinados, viveremos a incansável busca de nós mesmos.

Não podemos interromper esse ciclo. Nós, a linguagem. Uma roda que não para de girar sem mesmo haver começado seu movimento. Assim somos, seremos, fomos. Fora do tempo e do espaço. Sem certeza de alguma coisa. Ser hipótese.

E, por isso, a questão, a dúvida, a incompreensão, a incógnita:

Ser?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

vou ser

seu toque suave a percorrer meu corpo
seus olhos a buscar em mim o segredo
seu sorriso
sedutoramente cativante
a romper em mim toda uma paixão

sua pele suave
ao tocar-me
me faz vibrar, tremer, desfalecer

ao deitar em mim seu olhar
vagarosamente
vou-me esquecendo de que vivo, de que há mundo

quando atingido pelo sorriso de seus lábios
já não existo
e tudo em mim morre e nasce a dor do querer, a insanidade

porque não há maneira de ser
se para ser dependo do seu ser
e sendo, em mim não sou
mas sou-me todo em você

e minha completude tampouco existe
se não há
em você
a razão do meu existir

se para me constituir, devo ser
e se para ser, deve, você, existir
sou se você existe
e se não existe você, não há eu e não há nada mais

insano
louco
sem juízo
apaixonado

eu eu eu eu

você
só 

nós da complexidade da vida no momento em que
atacado pela essência
percebo a inexistência de uma coerência
incongruência de ser

e amar
e então amar
e assim amar
e ainda amar
e com tudo amar

e viver
e vi ver meu ser seu existir
e viver minha incompletude
sendo ser

mas em você volto a ser

(loucura e paixão)

pois só e somente
podemos ser

sábado, 28 de maio de 2011

Vizinha


O que leva o ser humano a querer saber daquilo que não lhe diz respeito? Por que sempre queremos saber do que é alheio, do que acontece lá? Essa comichão que sentimos quando percebemos uma movimentação estranha e incomum ao nosso redor até que nos agrada. Podemos ignorar completamente os fatos, mas sempre nos vem aquela sensação de que algo não vai conforme os eixos.

Um dia, dirigindo-me ao trabalho, subia eu, curiosamente distraído, a rua, quando fui interrompido em meus botões por uma voz que chamava instigada: “Ô, moço!”. Tão mergulhado em mim estava, que não atendi à primeira vez; não que o fizesse propositalmente, mas por não estar ligado ao mundo à minha volta. “Ô, moço!”, insistiu com certa impaciência a voz. Procurei de quem seria esse chamamento inesperado e, sim, inoportuno.

Deviam ser 8 horas da manhã. Nesse dia estava de um humor agradável, apesar das muitas noites mal e não dormidas, por isso não me deixei levar pela ignorância que, não raras vezes, acomete aos que acolhem o mundo nas costas. Já estava acordado há um bom tempo, portanto não foi o sono que me causou a estupefação que logo mais me alcançaria.

A voz partia de uma senhora que, mesmo cedo, já se mostrava impaciente e ligeiramente nervosa. Desconheço se este é seu humor cotidiano, mas me pareceu um tanto perturbada nessa manhã tão suave. Ela se inclinava e se movia tentando lançar seus olhos a uma movimentação que, um pouco abaixo, se percebia. Por essa movimentação havia passado há pouco, mas nem a notara, ou, antes, a enxergara, mas não lhe dera importância, como a muitos e mais relevantes detalhes. Até que aquela voz me trouxe.

“O vizinho de lá tá mudando?” Estranhei a pergunta. O que eu saberia de um vizinho que nem conheço? Aliás, nem vizinho meu era... Creio que fiquei sem fala por uns minutos, tentando recuperar os fragmentos daquela voz que, parecia, não haviam chegado a mim; pois a senhora repetiu a indagação, quase uma interrogação à qual teria a obrigação de contestar com a verdade, nada mais ou menos que ela.

“Não sei...” Tive receio ao responder. O que se confirmou com a resposta da curiosa senhora.

Além de querer saber de tudo o que se passa fora, por que insistir em que o que vemos é aquilo que, de fato, aconteceu? Não nos basta os nossos monstros, temos também que adotar os dos outros? Isso é esdrúxulo; isso é caracteristicamente humano.

“Mas você estava lá, ajudando!?”. “Não, não estava...”. “Estava sim!”. “Não...”. Ela, definitivamente, não gostou da minha resposta.

Fico pensando se poderia haver dado outra resposta à preocupada senhora: “Sim, estava, mas não conheço aquele pessoal, só quis ser solidário”. Ou, então, “Não, mas, se a senhora quiser, posso me oferecer para ajudá-los e, assim, posso saber o que estão fazendo.” Não tive tempo para arquitetar uma resposta consoante ao momento. Meu simples e puro “Não”, achei, devia ser suficiente. Afinal, nunca imaginaria que seria questionado por alguma ação que não pratiquei.

De fato, a senhora não se deu por satisfeita. Deixei-a em sua contemplação incansável e insaciável. Mas aquela boca torcida e aquele olhar acusador que a distinta vizinha me lançou foi um troféu. Continuei minha jornada com um meio sorriso na boca. Não sei se de susto, talvez de incompreensão, mas sei que havia algo de irônico. Disso, sim, eu me lembro. De imediato julguei intrometida a atitude da vizinha. Pouco depois, pus-me a pensar: por que tanta curiosidade? Seria um alívio essa mudança? Talvez uma afronta. Enfim, algo havia que perturbou fortemente aquela senhora.

Dessas indagações, comecei a especular motivos vários para que o vizinho desconhecido estivesse de mudança. Quem sabe ele não o estivesse fazendo por algum outro vizinho que já não suportava? Ou simplesmente mais uma daquelas mudanças necessárias. Mas algo havia ali. Eu podia sentir. Não era algo comum, nem mesmo corriqueiro.

Com a distância, meu pensamento foi ficando rarefeito. A preocupação alheia foi esvaindo-se das minhas preocupações. Afinal, por que mesmo me importava a mudança daquele que nem era meu vizinho? Aliás, ele ao menos estava de mudança? Já nem me lembrava do que havia visto, ou apenas percebido, naquele breve instante em que passei em frente aquela casa e nem mesmo notei aquela movimentação toda.

Tudo era um pensamento ofuscado. E aquela senhora, vizinha. Continua lá. Não lá onde deveria, mas lá, onde o alheio parece tão nosso quanto do outro. Lá, onde nossos olhos veem o que não se vê. Lá, que é ali, aqui. Aquele outro que, por ser outro, nos incomoda tanto; que, sendo distante, precisa estar mais perto; que, estando alheio, parecendo tão desamparado, precisamos aproximá-lo. E é tudo natural.

O vizinho, quem sabe, se mudou, de fato. A vizinha, com seu ar de conhecedora do mundo, continua lá, conhecendo tudo, o ali, o aqui. E eu sigo meu caminho, alheio a mim mesmo, já que, assim, ele também será meu.

domingo, 23 de janeiro de 2011

“Se hace camino al andar”



Me detengo un segundo y miro hacia atrás. Hacia el pasado. Mis ojos observan el camino hasta aquí recorrido. No es un camino muy largo, tampoco muy corto. Caminé lo suficiente para decir que apenas aprendo a vivir. Y aprender exige una fuerza tremenda. Un esfuerzo muy grande y muy penoso. Pero todo y cualquier esfuerzo que uno hace para aprender, sea lo que sea, a andar o hasta a amar, o dejar de amar, es un esfuerzo que se invierte en la emoción más grande que se puede sentir: la emoción de saber, de sentir, de pensar, de vivir.

Mirar es una acción que exige coraje. Hay que tener valor para mirar, sabiendo que podrás ver algo que no te agradaría. Miro, no por el valor que tengo, sino por la necesidad que alimento de hacer valer la pena el día que se fue, intentando hacer con que el mañana sea mejor. Un intento vano. Miro y mis ojos ven lo que no pasó. Caminos que no crucé, personas con quien no hablé, experiencias que no tuve, vidas que no viví. Todo podría ser distinto hoy. Tal vez no estuviera aquí, a lo mejor ya no sería el yo que soy ahora, pero un yo que dejé que se fuera en una de estas esquinas del laberinto. Si es que un día llegué a ser este yo.

Y mirando hacia estas personas que un día fui, estos caminos por donde un día caminé, no puedo dejar de pensar que podría ser todo distinto. Si hubiera tomado aquél y no este rumbo, mi vida sería otra. Si sería mejor o peor, si estaría más feliz o más triste, si estaría amando u odiando, si tendría a alguien en mi cama o a mi puerta no puedo decir. Solo puedo soñar. Y, soñando, no sé si podré llegar a ver lo que habría pasado. Tal vez no sería bueno saberlo. Ojalá un día, caminando por senderos tercamente bifurcados, llegue a ser alguien semejante a estos que se perdieron en el laberinto.

sábado, 29 de maio de 2010

Labirinto


E, sendo isso tão complicado, não sei o que escolher... O caminho segue e, mais a frente, se divide em dois, três, vários. Mas só um é o meu. O de mais dor... Mas como seguir nesse caminho estando sozinho? Se a noite me alcança, melancólica e acolhedora, me entrego. Mas logo o sol, poderoso e prepotente, me rouba o sonho. Não. Só com você posso conseguir, poderei percorrer e sobreviver esse mundo. Uma jornada sem destino, uma história sem fim...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Confissão


Si un día las estrellas no brillen
Seguro las podrías sustituir
El lucero de tus ojos resplandece de manera tal
Que en mi alma ya no hay miedo
Cuando me miras me siento morir
Porque la fuerza de tu ser me roba el aliento
Y me haces temblar

Te siento respirar muy cerca
Y ya no quiero despertar
Tu nombre lentamente se escapa de mis labios
Y yo siento el dulce dolor de quererte desesperadamente

No es pasión
Quiero iluminarme con tu esencia
Revolotean mis ánimas al sentir tu presencia
Me tocas y sueño
Me besas y me voy
No te quiero agotar hoy
Guárdame un poco de ti para mañana
Si es que podré soportar esta hazaña

Y cuando lejos me acorde
Tu sabor que aún reposa en mi piel
Te hará vivir
Y brillarás un poco más

Pero si las estrellas…
No digas que sí
Porque te quiero solo para mí
En mi cielo inalcanzable

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A senhora que voa do céu a nós (Angústia e Solidão)

Ai! A vida... Cheia de truques e fantasias. Ontem me fez pegar o ônibus errado... Mas não faz mal, pude ver a chuva cair em plena Avenida Afonso Pena. Que espetáculo... Vento forte, a água escorrendo no vidro do ônibus, o calor. Sempre admirei a chuva. Aquele cheiro que sobe no nariz e dá vontade de comer chocolate. Uma sensação refrescante de tranquilidade. Dá pra sentir o calor se rendendo à sensualidade dessa água que cai do céu num movimento forte e extremamente perigoso. E a gente se entrega, o tempo se entrega...

Não sei se hoje chove. Pela meteorologia, uma chuva rápida ao fim da tarde.  Quem sabe? Tudo pode mudar de um minuto para o outro. Depois, pode chover em qualquer parte da cidade, não necessariamente em toda ela.

A chuva é angústia...

sábado, 30 de janeiro de 2010

Último Suspiro




Abriu os olhos e viu reflexos da noite de melancolia. Mal dormida. Doída. Longa, infelizmente. Mas não há o que pensar. Isso preocupa. O corpo ardido e ainda preguiçoso, mais nada. Tudo é vazio. O quarto apertado e fedido é o que lhe resta. Esperança pouca e fatídica. E agora? Sem nome, sem origem, sem destino. Por amigo, só a lua; brilhante e cheia de doces sussurros enamorados. Ah! Se ao menos ele soubesse gozar dessa oportuna companhia. Mas não, prefere os inconsoláveis e horrendos lamentos da alma. E eu!? Seus olhos não me alcançam... Cegou-se pelo medo, pelo desespero. É, ele tem medo; muito medo. Mas nem assim me olha de novo. Tem vergonha do horror do seu olhar, não sabe que me faria bem suas lágrimas em meus ombros. 
 
Não fui pra casa. Não tive coragem de deixá-lo sozinho, não com toda a dor que ele sentia. Dormi ao seu lado. Ele não me sentiu; o abracei. Chorei. Como há muito tempo não fazia. Seu corpo tremia. Um corpo tão frio... Que aperto no coração senti ao escutar as murmurações de seus pesadelos. Quis aquecê-lo, mas o frio era maior. Estremeci. Lembrei-me do tempo em que ele me acolhia. Quando sentia medo da chuva. Ele aparecia com aquele sorriso de quem se mostra forte, mas que também tem medo. Seu abraço me tirava qualquer preocupação. Dormia logo. Era desse abraço que eu precisava... Ele, mais que eu. 


Ficou agitado ao perceber que eu ainda estava ali. Não me disse nada. Gostava da minha presença, apesar de temê-la. Sentou-se na cama e suspirou fundo. Levantei meus olhos e admirei sua força. Ele me olhou. Nos olhos. Da felicidade ao ódio, em um lapso. Vá embora! Há quanto tempo aqueles olhos não me viam... Há muito tempo não ouvia sua voz. Suave e rouca. Não saí. Ele implorou. Mas eu não queria deixá-lo. Ele chorou. Eu chorei, não sabia por que estava chorando. Ele disse que me levaria embora. Eu não quis. Queria ficar com ele. Mas ele não me queria mais. Eu não acreditei. Ficou por isso. 


Não nos vimos o resto do dia. Ele me deixou sozinho. Achei alguns biscoitos esfarelados, um resto de café frio e um leite azedo. A fome apertou e quase desisti. Mas não iria deixá-lo mais. A tarde abafada demorou a passar. Enquanto esperava me lembrei dos anos roubados pelo tempo. Como éramos felizes. Ao menos ele não estava sozinho. Esperava ansioso até que ele chegasse. Conversávamos e ríamos muito. Mesmo quando eles brigavam, ele ia ao meu quarto e a gente simplesmente aproveitava a companhia um do outro. Não precisávamos de palavras.


Lembro uma tarde, a que ele foi embora. Eles haviam gritado muito. Até quebraram alguns pratos. Da gritaria algo que ela disse me sangrou o fundo da alma: ‘não quero mais saber de você!’. Sabia muito bem o que isso significava. Quando ele foi ao meu quarto estava escondido na cama; com medo. Ele me abraçou. Disse que a gente não ia mais se ver. Eu chorei muito. Ele também. Mas as lágrimas não o impediram de me machucar. O que mais doeu foi ficar a noite toda acordado. Quem sabe ele não voltava pra casa... Ilusão. Decepção. Estávamos sozinhos; e ninguém pra nos abraçar. 


A noite entrou fria. Pensei que não o veria de novo. Mas ele veio. Trouxe comida pra gente. Enquanto comíamos, ele me olhava. Feliz. Há muito tempo não sorríamos. Não havia mais dor, não existia outra coisa no mundo. Só nós dois, aquele quarto. Estava tudo perfeito outra vez. Conversamos e rimos. Mas ele não era o mesmo; eu também não. Muito tempo havia passado. Mesmo assim, ele não quis que eu ficasse ali. Não havia nada que eu pudesse fazer. Aceitei e disse que de manhã iria embora. Ele sabia que era mentira.


De repente, uma batida à porta. Ele esperava alguém? Não. Também estava surpreso. E, pior, assustado. Ele me olhou e me mandou esconder debaixo da cama. Fui, com receio. Ele abriu a porta. Aqueles homens não pareciam contentes; muito menos seus amigos. Gritavam e empurram-no. Entraram e começaram a quebrar o pouco que tinha por ali. Desespero e medo. Pude ver em seu rosto. Mas eles me descobriram. Eu não sabia o que estava acontecendo. Eles me machucavam; batiam em mim. De joelhos, em lágrimas ele implorava que me soltassem. Jogaram-me no chão.


Ainda pude ver a dor em seus olhos. Eu te amo. Foi o que ouvi ele sussurrar. Não me deixa de novo. Foi o que eu lhe disse. Ele chorava muito, eu não conseguia. Ele me abraçou forte e não me soltava, mesmo enquanto o puxavam e o empurravam com muita força. Ele ignorava a dor e me olhava no fundo dos olhos. Ele ainda me sorri...  O último sorriso seu que eu posso ter. O mais belo de todos os que já me havia dado. O mais sincero. O mais profundo. O mais melancólico. A dor é muita. Mas não quero perder meu último momento com ele. Aspiro cada segundo, cada detalhe do seu rosto, cada lágrima de seus olhos... Levo tudo comigo. Deixo pra ele minha ingenuidade; meu amor teimoso, meu último suspiro...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Poesia de si mesmo

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A noite era fria e o vento cortava  o pasto. A lua, grande e desbotada, sorria-lhe, contemplando as estrelas dançantes. Não via sinal de chuva, embora da terra sentisse desprender-se aquele aroma delicioso que despertava seu desejo. Estava a sonhar, quase acordado, um sonho perturbado, mas sentia-se bem, não feliz, mas bem. Não queria que o sonho acabasse, mas um seco latido, vindo de depois das montanhas, com certeza, o assentou na úmida noite. Sentiu desconforto pela dureza da terra, mas não se moveu. Vagou o olhar, tão preguiçosamente quanto pensava, pelo céu. Não se fixou em nada, apreendia, inconsciente, a noite.

Suavemente, voltou ao sonho. Sentiu-se leve, mais que uma brisa. Ainda conseguiu ver seu corpo timidamente esticado e voou num relâmpago. Foi-se sentindo mais pesado, mais significativo, atestou que voltava a ser alma vivente. Mas a luz não lhe permitia ver, apenas sentia o vazio em volta de si. Nenhum vento, nenhum cheiro, somente o silencioso eco no nada. Se não fosse o calafrio percorrendo todo o seu corpo ao sentir cair aquela única e salgada lágrima, diria que já não mais era. De fato, era, mas nele mesmo. Despedaçado para formar um todo; mas um todo que só existia em si. Era o que estava a observar.

Sentiu-se unânime, sentiu-se universo. Essa complexidade não havia existido nele. Incapaz, instável, diminuiu-se na imensidão de ser, do seu ser. Era e simplesmente deveria ser. Mas não se conhecia. Não até então. Era completude e fragmento. Era sonho e realidade. Compreendeu e, então, chorou.

Chorou por conhecer sua realidade. Chorou por não se lembrar mais de suas doces lembranças. Chorou por ser alma carcereira de um espírito impetuoso. Chorou por não saber por que chorava. Chorou e se conformou com tudo o que se deveria conformar.

Passou-se tempo; tempos e momentos memoráveis, mas longe de ser aquilo com o que se deseja ser eterno. Mas sua eternidade, e isso o alentava, ali era breve. Sentiu e pensou o que não queria, mas foi com isso que aprendeu a ser poeta. Poeta, aprendeu a amar, única sensação a que se deu o trabalho de dissecar, não por beleza, mas por disparidade. Amou e não se cansou de querer amar. Só o que não gostava era dos sonhos.

Sempre que sonhava, acordava sufocado por uma angústia infinita. Não compreendia os sonhos, nem sequer os queria compreender. Pensava neles e logo se arrepiava por uma realidade tão impalpável. Era essa, no entanto, viria logo a saber, a angústia de um filho saudoso de seu lar. Mas ainda era cedo e não lhe convinha pensar em matérias tão longe das simples sensações a que seu corpo se submetia. Matéria esta que lhe exigia sentir com o espírito, algo absurdamente impossível.

Mas o que, ao parecer, estava longe de seu destino, anunciou-se numa esplêndida aurora. A dor foi intensa. Se pudesse não senti-la, ou simplesmente não conhecê-la. Seu corpo reacionava violentamente contra a agonia da alma. No entanto, o espírito regozijava-se. Um conflito de sensações estranhas percorria pesadamente seu corpo, morrendo ao se deparar com a vibração obscura do espírito. Já pouco sentia, já quase nada vinha-lhe à memória, já o eco gritava o silêncio aos seus ouvidos e a agitada luz dançava em seus olhos. Um zumbido fino cortava seu corpo. Afogou-se em si e desvaneceu.

Sentiu escorrer em seu rosto uma gota d’água. Chovia. Levantou os olhos e não podia contar as estrelas, mas sabia que eram muitas. Imaginou a lua, reinando por trás destas nuvens. Pensou na terra úmida que suportava seu pesado corpo, e na grama amassada por debaixo de si. Tudo em um lapso revigorante. Sorriu e decaiu-lhe do rosto uma lágrima que, misturada à chuva, regou religiosamente a terra. Voltava a ser poeta de si mesmo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sofia

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Foi numa noite como esta que ela chegou. Eu nada podia fazer naquele momento. A tempestade foi rápida e avassaladora. Lembro-me bem porque o meu corpo sentia este mesmo estremecimento ao ser sacudido pela brisa da manhã que estava por vir. Não dizia nada. Palavra nenhuma poderia dar um destino diferente àquela noite. Senti-me prisioneiro da minha alma, clandestino em meu corpo. Culpado e com nenhum esforço para obter a inocência, carreguei religiosamente meu sinistro fado.

A sombriedade dos dias que se seguiram foi-me remédio, comparada ao peso da dor que violava meu espírito. Fui o eterno doente a quem não interessa a cura. Deleitava-me em meus pesares. A cada angústia regozijava-me, como o pai se regozija ao receber em casa o filho outrora perdido. Não questionei o destino de meu espírito; minha alma se esparcia, então, na densa escuridão em que vivia. Onde habita, oculta, a luz.

Dói-me sua agressão; lastima-me seu toque. Carrego no espírito as incuráveis chagas que ela me trouxe, na alma, o ardente desejo de possui-la e no corpo, as inegáveis evidências do meu pecado. Cigana, me ressuscitou da morte causada por ela mesma. E, por isso, aprisionou-me. Não há caminho de volta. Assim como a noite esconde o dia, seu mistério arrebatou meu ser.

Amo-a por isso odeio-a. Somos.

sábado, 30 de maio de 2009

Dor


Suave...
Distante...

Enleva meu corpo e assassina minha alma.

Me faz rir e, logo, chorar;
Me dá prazer e, entao, ódio;
Transcende meu espírito e me faz imortal.

Mas a dor é humana,
Nao existe para uma alma sem vida.

Morre o espírito,
Morre a alma,
Mas nao sou imortal;

Meu corpo me ressuscita,
Me reanima e me sopra a vida.

Distante e suave...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Fé


“Nunca sei ao certo
Se sou um homem de dúvidas
Ou um homem de fé
Certezas o vento leva
Só duvidas, continuam de pé
*Paulo Leminsky


“[...] somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma. Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.
*Paulo, o apóstolo


Se me perguntassem qual é a coisa mais difícil de se definir, não pensaria muito: a fé. Sim, a fé. Uma palavra muito pequena, mas multifacetada. Não é como o amor, também difícil de se perceber, ou a vida, eterna dúvida do homem; mas é algo um tanto misterioso, com uma pitada de ‘resposta para tudo’. Como medir a fé? Como saber que temos fé? Como ver a fé? São perguntas que não têm resposta. Podemos pensar que temos fé porque acreditamos em algo que está além do nosso entendimento. Mas não é tão simples assim.

Pensar em fé seria pensar em não duvidar? Não creio que seja assim. De fato, quando pensamos em fé logo pensamos em dúvidas e em certezas, mas, além disso, a fé se envolve com nossas escolhas. Ela possui um laço estreito conosco mesmos, enquanto com as dúvidas e as certezas do mundo, ela está separada por uma parede, não, por um biombo. Isso porque ela tem mais a ver com o que é subjetivo do que com que identificamos como coletivo. Por exemplo, quando vemos em uma igreja um grupo que se reúne todos os dias, não digo que é a mesma fé que os une; a soma das fés (me permitam o neologismo) individuais que ali se encontram vai além de um conhecimento compartilhado por aquelas pessoas. Cada um com a sua fé consegue conviver com a fé do outro, identificando aproximações e casamentos entre subjetividades. Assim, surgem comunidades composta de várias subjetividades aproximadas e convergentes.

Mas ainda existem várias faces da fé que ainda não conseguimos ver muito claramente. Uma delas diz respeito às dúvidas e certezas, mas essas individuais. O homem é um ser cheio de dúvidas, indagações, incertezas, ou seja, é essencialmente filósofo. Alguns conseguem viver plenamente com essas dúvidas (não me perguntem como), outros, se desesperam e acabam ficando loucos (são os que encontramos na literatura), existem ainda aqueles que conseguem viver “pacificamente” com suas dúvidas, alimentando-as, às vezes, e buscando mais de si mesmo nelas. Podem haver outros tipos (não que eu queira catalogá-los), mas ver esses já é suficiente. Como a fé age no homem, então? Acho que a pergunta deve ser outra: como o homem age com a fé? E agir vai além que uma simples ação momentânea, mas abarca um conjunto de ações que influem, então, em algo bem maior, como a própria vida.

Para se aproximar de algo que pareça como uma resposta a essa pergunta, precisamos pensar a relação que a fé estabelece com as dúvidas e as certezas. Primeiro, certezas nem sempre são tão certas assim, então, fiquemos com as dúvidas. Segundo, dúvidas nos levam a mais dúvidas, então, não nos aprofundemos muito para não nos perdermos. Por fim, um fato inevitável, a fé se torna resposta bastante recorrente às dúvidas; ela é o lastro de respostas a perguntas difíceis. Assim, bem no senso comum, a fé é a válvula de escape. Mas ela está além disso. Ela está na dúvida, na sua constituição e na sua essência; é a fé que nos faz duvidar de certas coisas e ter certeza em outras. A fé tem muito mais ligação com a dúvida do que imaginamos, está mais ligada a nós que podemos ver.

Assim, a fé é que leva o homem a tomar esta e não aquela decisão, a fazer determinadas escolhas. Por mais que não vejamos, é a nossa fé que nos aponta os caminhos que seguimos e os que não seguimos. Tudo o que o homem se propõe a fazer é conforme sua fé. Suas ações, suas escolhas, suas decisões são todas fundamentadas na fé que ele carrega. Não sei dizer até que ponto a fé é inata e até que ponto ela é adquirida, mas uma coisa eu tenho por certa, ela se confunde constantemente com a consciência humana. É o famoso ‘algo me diz’. E, assim, vejo que é a partir da nossa fé que desenvolvemos todos os outros sentimentos que sentimos. Todas as nossas certezas são conjeturadas pela fé, assim como as dúvidas o são.

Essa é apenas uma das mil faces da fé. Outra se aproximaria daquilo em que acreditamos. Um assunto um tanto complicado que aqui não pretendo desenvolver, já que diz de algo bem mais subjetivo que o aqui apresentado. Quem sabe em outra oportunidade eu discorra um pouco sobre aquilo em que acredito. Mas creio que existe algo em que todos acreditamos, pelo menos devemos acreditar: em nós mesmos. O que é ter fé em mim mesmo? A resposta, creio, está na jornada; ainda não terminei o caminho.

sábado, 25 de outubro de 2008

Um Mundo Só Meu


O sol se levanta.
O primeiro pensamento é Que horas são? O tempo voa. É tudo muito rápido. Tempo, não há de sobra. Cinco minutos de descanso são para pensar no que mais é preciso fazer. A rotina afoga e estressa. Não posso esperar mais um minuto. Tem que ser agora! É pra ontem! Ainda não terminou? Já era... Espera! Tem mais isso... isso também!... É claro! Como pude esquecer...?! Agora não posso! Não tenho tempo! Pode ser depois?

O sol arde no asfalto.

Correria. Não existe ninguém neste mundo mais atrasado que eu. Por isso, corro. Sempre. Vivo correndo. Literalmente. Já almocei? Acho que sim. Já não dá mais... Mais dor... cabeça, braços, mãos, pernas, pés... Mas falta pouco. Por hoje acho que é só. Ainda não. Tem mais aquilo. Agora sim, acabou! Mas não tenho tempo pra isso. Outro dia, quem sabe?

O sol tinge a rua de um tom alaranjado... bonito.

Mas o ônibus demora muito. Esse pessoal não pode esperar o próximo? Que calor insuportável. Abram as janelas! Por Deus! Que...! O contato físico me enjoa. Sentir a respiração do outro é sufocante. Não aguento mais! Estamos todos na mesma situação. Atrasados. Sem tempo. Olhos só para o relógio. Ouvidos só para as ordens e recomendações. Boca só para discutir coisas pertinentes. Nariz só para farejar os problemas. Mãos só para praticar as tarefas necessárias.

A lua está cheia... brilhante.

Mas agora é hora de descansar. Amanhã é um novo dia. Que de novo não tem nada. Preciso repor minhas energias. um banho fresco, lençóis limpos e macios me esperam. Sonhos doces e cheios de fantasias.

Olhando para o escuro, penso... como minha vida é cansativa! Cheia do nada que enche o escuro desse quarto. Repleta de momentos sem razão. Pra quê eu vivo? Tenho a mesma motivação que uma formiga. Não é com isso que sonho todas as noites. Mas não posso exigir mais do que recebo. Afinal, não sou só eu, existem milhões de pessoas nesse planeta. Uma mente nada vale nessa grande engrenagem.

Por que esses pensamentos agora? Será que estou ficando louco? Deve ser o sono... É melhor eu virar para o outro lado...

Mas por que sonho com essas formigas? Elas que sempre seguem um caminho certinho... mas, de repente, uma delas decide seguir por outro caminho, explorar lugares desconhecidos, trilhar estradas novas. As que vêm atrás dela não sabem o que fazer. Algumas a seguem, outras decidem seguir pelo caminho tradicional.

Esse sonho, de novo! É engraçado... os homens se parecem muito com as formigas... alguns, mais entendidos, traçam caminhos para os demais seguirem. Um caminho perfeito, pronto para ser seguido. Meus pés o percorrem todo dia... milhões de outras pegadas se encontram nele, e a cada dia novas, se vão fazendo. Um caminho feito pra ser percorrido.

Seguindo um caminho de outros... como eu sou vazio... caminhando por um chão tão alheio a mim. Minha vida é vivida pra outros. Por que eu não posso criar um caminho só meu? Um caminho que me leve a um mundo só meu...

Meu mundo... um mundo onde eu poderei observar a beleza do sol, o brilho inebriante da lua. Observar os detalhes míninos de tudo o que eu fizer. Prestar atenção nas pequenas coisas e me satisfazer em tudo isso. Um mundo onde não existe rotina, onde eu poderei fazer tudo o que quiser e na hora em que eu quiser. Um mundo onde é permitido parar no meio da rua e ficar observando, à toa, o movimento das pessoas ou qualquer outra coisa que, num momento, seduzir os olhares.

Basicamente, um mundo onde não haja rotina e onde as pessoas não sejam... ocas.

Que horas são? Acho que está na hora...

Como é lindo... um momento único e maravilhoso. Uma sensação diferente me invade o corpo. Um sentimento de alívio, de leveza... É como se eu estivesse voando... voando nesse primeiros raios que aquecem a manhã... viajando pela aurora... viajando pela beleza da vida... viajando em mim mesmo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

"Papai, eu quero a lua"


As crianças têm uma capacidade tão interessante de pensar que tudo cede aos seus desejos. Inocentes, desejam e querem ver realizadas todas as suas vontades. “Papai, eu quero a lua”, foi o que ouvi de uma criança, pedindo seu pai, como se, acionando um interruptor, ele pudesse fazer vir a noite. Aquela criança apenas queria que o dia acabasse, assim como nós, muitas vezes, desejamos apressar ou voltar o tempo. A diferença está na forma como a criança deseja, como se a realidade se submetesse aos nossos sonhos e fantasias mais pessoais, enquanto nós apenas pronunciamos palavras vazias, sabendo que nossos desejos são insignificantes.

É tão bonito ver a inocência das crianças e pensar que um dia nós também éramos assim. Mas o que não vemos é que essas pequenas criaturas têm muito a nos ensinar. Apesar de sempre declararmos isso, nossas palavras, como sempre, soam vazias e nos fechamos ás mínimas lições da vida. Como o mundo seria melhor se conservássemos aquela fé que, verdadeiramente, move montanhas. Aquela confiança nas pessoas. Aquela esperança de que nossos sonhos se realizarão.

Mas crescemos. E o mundo nos ensina a não sonhar, a não desejar, a não viver livremente. Não podemos mais acreditar nas pessoas, ou em nossos sonhos. Devemos aprisionar todos os nossos impulsos de liberdade e viver exclusivamente em prol da humanidade.

Engraçado, a humanidade é feita de pessoas. Indivíduos com suas vontades, seus sonhos, suas individualidades, seus anseios. Como, então, uma humanidade pode viver sem liberdade? O coletivo sufoca o desejo subjetivo. É como se a parte não importasse para a plenitude do todo. Mas que grande contradição. Os sonhos individuais, transformados em sonhos coletivos é que movem o mundo. As idéias partem de um indivíduo e contagiam a sociedade. Não existem desejos coletivos, existe comunhão de intenções. Os bons indivíduos são aqueles que expõem seus desejos para a sociedade. As idéias que movem o mundo partiram de mentes livres.

Por isso, não deixe de desejar, não para de acreditar nos seus sonhos, não se submeta à sociedade. Seja um indivíduo livre. Pense. Sonhe. Não tenha medo de ser livre. Seja novamente uma criança, que deseja com toda a sua alma. E, acima de tudo, não deixe de contagiar o mundo com a sua subjetividade, pois, sem ela, o mundo não seria o que é.