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sexta-feira, 29 de julho de 2016

A última carta

O céu alaranjado. Tudo estava perfeito. O vento me deu calafrios e a lua se me fez extremamente brilhante. A noite foi a mais linda de nossas vidas. Ainda não podíamos saber da aurora, o ocaso era inspirador. Não sei quanto tempo ficamos ali, parados, a olhar o horizonte. Não queríamos dizer uma palavra, com medo de apagar pra sempre aquele momento. Mas ele se foi, já sabíamos que não poderíamos torná-lo eterno. Eu, principalmente. Você não soube, mas naquela noite meu coração estava mais temeroso. Não sei se por sua causa, mas minha alma estava inquieta.

A ansiedade se tornou maior. O choro não pôde mais ficar guardado no meu peito (apesar de fazer de tudo para não deixar você me ver com medo). Você me olhou no  fundo do meu coração e me abraçou. Era desse abraço que eu me lembraria para sempre, ao ver você pela última vez. Tristeza, era tudo o que eu podia nessa noite. Mais tarde entenderia que também estava sendo egoísta. Mas não queria estar triste.

Tentei dormir. Pensei em você e no que você estaria pensando. A dor no peito era muito forte. Nada me fazia esquecer-me de nós. Mas a dor também era intensa e infindável. Aos poucos, fui recordando todos os dias, todas as noites. Nossas dias e nossas noites. Mas, então, eu não poderia saber que éramos, tinha medo de me descobrir sozinho, mesmo com você ao meu lado. Será que você era feliz? Como eu poderia ter essa resposta? Estava aflito só pela pergunta. E aí, como acontece com toda alma atormentada, fui sufocando meus sentimentos, para que você não me flagrasse em um momento de fraqueza.

Foi tudo mentira? Ilusão? Não me culpo. Não culpo você. Simplesmente foi. Nada podemos fazer agora. Então descobri. Pela última vez escuto a nossa música. O violão parece muito mais melancólico. Você tinha razão: eu nunca fui capaz de amar, guardei isso e nunca pude revelar pra ninguém. Achei que tinha achado em você uma forma de me libertar dessa minha sina, mas, não. Tudo foi vaidade de vaidade. Mas foi verdadeiro, isso, sim. Foi intenso. Foi libertador,

Espero que você guarde pra você o que eu fui. Nesses últimos momentos só posso sentir o que você foi. E é por isso que seremos eternos. Essa nossa última tarde será o nosso para sempre. Essa nossa última nossa será infinita. O céu se transformou para sempre, e o tom alaranjado, que se tornara, de repente, azulado marcará nossa eternidade. Serei para sempre seu, e você estará sempre comigo agora. Confesso que achei que seria triste esse final, mas, na verdade, sinto alívio, melancolia e tranquilidade. Não estou triste. Não estou insatisfeito. Fiz tudo o que tinha que fazer. Vive com você tudo o que tinha pra viver. E é por isso que escolho este fim, este momento para ser o fim.

Mas o final será o nosso para sempre. Seremos infinitos neste momento. Somos o agora e o nunca mais. A dor não estará mais aqui, apenas o consolo de uma vida plena. Espero que você perceba que faço isso por nós.

Adeus, meu amor.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Primeiro amor


O piano reclamava, ao longe, melancólicas notas de um blues. Melancólica, sua alma insistia em perambular languidamente pela escura noite. A brisa batia levemente em seu rosto o orvalho dos últimos minutos daquele costumeiro dia. E ele voava.

Longe, seu pensamento vagabundeava por cantos remotos. Uma memória, um desejo... Não caminhava pelas ruas do centro, coberta pela sujeira de inúmeros sapatos que ali despejavam segredos. Não sentia o mormaço que, maviosamente, se desprendia do asfalto e se perdia no frescor daquele final. Não ouvia o ruído da cidade, o ronronar dos prédios, o murmurar das paredes, que, teimosamente, postergavam o ócio. Não. Ele não era urbano. Não naquela noite. Não depois daquele difícil tarde. Não depois daquela incógnita manhã.

Tudo começou na noite anterior. Ele havia ido jantar com a companheira da vez. O último. Dessa vez tudo caminhava bem. Ele conseguira acertar, na maioria das vezes, os protocolos de um bom relacionamento. Saíam todos os fins de semana para apreciar o pôr do sol. Durante a semana, encontros casuais. Às vezes um almoço, ou, então, um rápido café. Quando o tempo apertava a maratona, se viam no happy hour. Mas as quintas eram sagradas.

Toda quinta ensaiavam a vida conjugal. Sempre na casa dele, que na dela não havia espaço para brincar com os filhos. Tratavam de trivialidades. Falavam do trabalho, de alguma reunião na escola de uma das crianças. Eram quatro. Certa vez, se imaginaram avós. Sempre terminavam na cumplicidade de dois velhos companheiros, sem intimidades, mas numa profusão de sentimentos.

Ele havia sido um bom amante. Burocraticamente lhe enviava flores quando do seu aniversário, também no dia dos namorados. Nunca esqueceu o primeiro encontro. Adivinhava seu humor e apreciava seu sorriso. Escrevia poemas e os lia no calor da cama perfumada por jasmins. Era intenso, romântico. Ela, apaixonada.
A passos perdidos por não sabia onde, ele revisitava cada palavra, cada sensação. Sem dúvida, ele havia se entregado religiosamente a ela. Ele ainda podia sentir o toque de sua pele, sua boca. O encontro de seus corpos era um arrebatamento. Com que paixão se haviam amado.

Naquele último sábado, antes daquela fatídica última noite, enquanto saboreavam o pôr do sol, sorvendo pecaminosamente a presença um do outro, ele não lhe escondeu seu medo:

- E se nunca mais pudermos ver o pôr do sol?

- ...

- Você nunca pensou se, um dia, você acordasse cega e nunca mais pudesse enxergar a vida!?

Naquela noite se amaram loucamente.

Desde então, não perdiam a oportunidade de um beijo, de um sorriso, de um olhar.

Chegaram assim ao último dia, apaixonados como no primeiro. Dançavam um tango quando o incêndio se agravou em seu peito. Aquela chama ardia e ela pôde sentir como se fosse em seu próprio peito. Foi então que se sufocaram em sua paixão. Ele, enfim, entendeu:

- É assim que é?

- ...

- O amor? É assim? É isso que se sente quando se ama?

- ...

Depois de tantas formalidades, ele finalmente poderia saber como é a aventura da vida. Ele experimentaria, de verdade, a dor do amor. Ele era uma criança com um brinquedo novo. Bobo, começava a entender os anseios da alma. Mas ela, adulta, se feriu com aquela chama.

Perdido, ele caminhava sobre as notas do piano, encharcando-se no orvalho, inebriado pelas memórias, nocauteado pelo amor. Não ouviu os pesados passos por trás de si. Apenas sentiu que o orvalho se adensava em sua pele e a música se desvanecia lentamente. Um frio percorreu seu peito, vindo do coração. O ar foi-se lhe fazendo escasso. Mas ele ainda alcançou a olhar aqueles olhos azuis, sua poesia. Tão assustados, cobertos de lágrimas. Dilacerado o peito, trespassado o coração pela brilhante lâmina manejada por aquelas suaves e desejadas mãos, ele sorriu. Partia da mesma forma como fora concebido: por causa do amor.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Duelo

Chorar. Abandonar a vida. Ver-se livre. Seja qual for o desejo dele naquela pesada tarde, pensar naquilo o consumia. Estava visivelmente abalado e aparentemente não conseguia encontrar uma decisão. Ele nunca foi bom com escolhas, elas o assustavam. Como agora. Estava completamente apavorado. Não poderia saber que o medo lhe seria mais útil que a segurança que tanto desejava ter. Na verdade, sempre fora o medo que fazia com que ele superasse. Ainda hoje, embora pareça nem se dar conta, o medo é sua melhor opção. Sempre lidamos melhor com as situações, com a vida, quando estamos com medo. E era isso que sentia. Medo. Medo de escolher errado. Medo de seguir o caminho errado. Medo de ser a pessoa errada. Se soubesse, ficaria feliz em estar com medo. Mas ele não poderia saber, por isso não estava confortável com aquela situação.

Passou toda a tarde ali, sozinho. Parece que a solidão o tranquiliza. À noite, já aparentava um pouco menos de ansiedade. Pôde sair e respirar, sentir a noite e simplesmente respirar. Tentava organizar as ideias, concatenar os acontecimentos. Sempre que se sentia assim, saía pelas ruas sem destino, como uma metáfora ambulante de si mesmo. O que ele nunca previa, ao menos sempre se surpreendia, é que acabava no mesmo lugar, como se algo o levasse para ali. E essa força, talvez divina , era reconfortante para ele. Chegando à velha estação de trem, era como se um mundo novo fosse criado. Ali, naquele momento. Tudo se constituía como em uma outra realidade. De fato, era uma nova realidade. E ele podia sentir.

Ali ficava a noite inteira, até o crepúsculo. Ali ele não precisava pensar. Ele unicamente respirava. Sempre pensava naquela música, como se ela pudesse abrandar seu espírito. Você já viu a chuva cair em um dia ensolarado? Mas não. Seu espírito, ou alma, como se preferir chamar, seria sempre atormentado. Essa era sua sina. Por mais que ele cantasse, a chuva não pararia de cair. O que a fazia diferente era aquele lugar. Naquela noite, como sempre, sentindo a canção, ele chorou. E então percebeu o que realmente era, qual era realmente sua vida. Não foi como nas outras vezes. Dessa vez ele sentiria algo diferente. Chorou à vontade. Gritou. Reconfortou a alma. Deixou o medo entrar.

Não foi uma luta vã. Ele fez, sempre fez, o que achava correto fazer. No entanto, depois daquela noite, naquela terrível noite, após aquela tarde sufocante, ele não seria mais aquela pessoa. Insatisfeito, que luta por ser mais confiante, por ser corajoso. Naquela noite ele lutaria de verdade, como nunca mais faria. Toda a força que um dia ele achou que nunca teria seria empregada nessa luta. Uma batalha a ser vencida, mas a guerra não acabaria ali. E ele não poderia sabê-lo. Pois seu inimigo, seu adversário, seu oponente, seria ele mesmo. Ele mesmo em sua renitência, por menos obstinado que sempre fosse.

A vida nem sempre tem o sentido que esperamos que tenha. Ela pode surpreender e, às vezes, assustar. Mas ele não se assustou. Como se, talvez inconscientemente, já esperasse o que lhe passaria ali, naquela noite. Chovia, ironicamente. Mas ele ainda pensava na música. Tentava entender os fatos, organizar seus pensamentos. Mas não foi sábio o suficiente. Não conseguia degustar a realidade. Sozinho. Abandonado. Sempre rodeado de pessoas que esperavam dele a voz de autoridade. Era temido por todos, inclusive por ele mesmo. Quando se olhava no espelho e usava aquele timbre amedrontador, chegava, às vezes, a dar gargalhadas. Essa figura não existe. Mas, ainda assim, era respeitada. Impunha medo.

Mas houve a gota d’água.

Ainda não conseguia entender como pôde deixar que aquilo acontecesse. Em situações piores havia conseguido restabelecer a, suposta, ordem. Orgulhava-se, em certo aspecto, disso. Sempre correto, íntegro, um exemplo. Por isso, bem sucedido. Não negava seu sucesso. Mas não se sentia ali. Não era ele ali. Agora, sim. Naquele lugar tão sombrio, podia sentir-se. Arrependia-se amargamente. Se tivesse sido um pouco menos ríspido. Se tivesse sido um pouco menos frio. Se pudesse, de fato, olhar com menos dureza. Se pudesse. Se. Tudo era uma suposição. A suposição de que se fosse ele mesmo. Mas ele não podia sentir medo fora daquele lugar. Por isso se escondia. Mas havia ido longe demais dessa vez.

A cena se repetia em sua memória. Sempre. E sempre. Ela o assombrava. Pesou sobre ele. Mas não se diluiu nas lágrimas. Não se esvaiu na chuva. Ali ficou. Junto a ele. A memória, a grande vilã. A ela, poderia haver-se juntado a culpa. No entanto, fora o medo que ele havia escolhido. Uma boa escolha. Contraditória. Mas eficaz.

O medo lhe subia pelo corpo. Fazia-o estremecer. Não era medo de alguma coisa ou de alguém. Era simplesmente o medo. O medo por si só. O medo e nada mais. E a dor. Insuportável. Era essa a arma do medo. A memória só tem como aliado um ser que já não mais existe. Ela luta com assombrações. Nocivas ao espírito, não ao corpo. O medo, não. Ele dói na carne. Que sofrimento. Dor na alma e no corpo. Uma aflição imensa. O que resistiria por mais tempo? Seu corpo? Frágil, já quase envelhecido. Seu espírito? Apesar de forte, mutilado. Era assim que ele se via. Apesar de não ser essa a sua aparência.

Entregou corpo e alma. E, como um mero espectador da própria desgraça, deixou que o destino fosse juiz e carrasco. Chovia forte na estação. A velha locomotiva lhe parecia um belo lar. Agora. Ele não entendia. Estava confuso. Ainda está confuso. Afinal, de onde vêm essas lembranças de uma vida tão deprimente que não parecia a sua? E esse medo de que essas lembranças fossem, realmente, as dele? Sua realidade é a dúvida. Só tem para si interrogações. Infinitas. Há a memória. Há o medo. Há a chuva, há o choro.

Conta-se que, na velha estação, quando chove, ouvem-se gemidos assustadores, que correm em um arrepio pelo corpo e chega dilacerante até o mais profundo do ser, na alma.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Desejo da alma

Eu juro que tentei, fiz o possível, mas me arrisquei e me doei sem restrições. Ofereci-me e nem um suspiro dei. Perdi minhas cores. Perdi meu corpo. Perdi-me. Mas o que você fez com o que era seu... Não entendo por que seu cheiro ainda me confunde, ainda me emociona. Seu suave toque é meu veneno. E você sabe, eu não sou capaz de resistir a seu lascivo sorriso. Nunca tive coragem de fugir desses terríveis tentáculos anis, repletos de sonhos e desejos, mas esvaziado de toda ternura e compaixão.

Eu sei que a culpa é minha. Sempre ansioso pela fria e soturna noite. Não me agrada o calor sufocante do sol. Já te havia confessado minha atração platônica à sensualidade da lua, à falsa cumplicidade das estrelas. Aí está minha loucura: apaixonar-me como se estivesse amando. Se pudesse ser como você... Tudo o que sente é o prazer das coisas. Até na morte, a carnal, você diz encontrar alento. Feliz, sempre te encontrei. Nunca uma lágrima de desengano vi acariciar sua impossível face.

Mas nossos dias foram avassaladores. Amamo-nos como se não houvesse mundo. Não havia manhãs ou tardes. A lua foi nosso esconderijo. Nas estrelas escondíamos nossos segredos. Sabíamos o risco. Ao menos você tinha consciência dele. Eu... Esqueci-o. Mais vale que não me lembre do que não posso enfrentar. Este meu labirinto eterno.

E as noites se tornavam dias, manhãs, tardes. Já não desfrutávamos da doce brisa da madrugada. Percebi que, então, já não era o mesmo. Eu, o amor... Você. Quando se viu perdido em meu labirinto, desesperou-se. Não se deu conta de que apenas avistara a silhueta, ofuscada e longe, de mim mesmo. Não sabe que apenas se aparenta monstruoso, mas, na verdade, busca sua essência? Você era a minha essência.

Agora seu corpo não reclama, não está amedrontado. Sua alma escorre aos meus pés. Você tinha razão, por dentro somos todos aquecidos. É tão bonito o que vejo: a imensidão do azul de seus olhos, a alvura de sua pele e a intensa cor escarlate de sua alma. Finalmente, você me pertence como eu sempre pertenci a você.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Último Suspiro




Abriu os olhos e viu reflexos da noite de melancolia. Mal dormida. Doída. Longa, infelizmente. Mas não há o que pensar. Isso preocupa. O corpo ardido e ainda preguiçoso, mais nada. Tudo é vazio. O quarto apertado e fedido é o que lhe resta. Esperança pouca e fatídica. E agora? Sem nome, sem origem, sem destino. Por amigo, só a lua; brilhante e cheia de doces sussurros enamorados. Ah! Se ao menos ele soubesse gozar dessa oportuna companhia. Mas não, prefere os inconsoláveis e horrendos lamentos da alma. E eu!? Seus olhos não me alcançam... Cegou-se pelo medo, pelo desespero. É, ele tem medo; muito medo. Mas nem assim me olha de novo. Tem vergonha do horror do seu olhar, não sabe que me faria bem suas lágrimas em meus ombros. 
 
Não fui pra casa. Não tive coragem de deixá-lo sozinho, não com toda a dor que ele sentia. Dormi ao seu lado. Ele não me sentiu; o abracei. Chorei. Como há muito tempo não fazia. Seu corpo tremia. Um corpo tão frio... Que aperto no coração senti ao escutar as murmurações de seus pesadelos. Quis aquecê-lo, mas o frio era maior. Estremeci. Lembrei-me do tempo em que ele me acolhia. Quando sentia medo da chuva. Ele aparecia com aquele sorriso de quem se mostra forte, mas que também tem medo. Seu abraço me tirava qualquer preocupação. Dormia logo. Era desse abraço que eu precisava... Ele, mais que eu. 


Ficou agitado ao perceber que eu ainda estava ali. Não me disse nada. Gostava da minha presença, apesar de temê-la. Sentou-se na cama e suspirou fundo. Levantei meus olhos e admirei sua força. Ele me olhou. Nos olhos. Da felicidade ao ódio, em um lapso. Vá embora! Há quanto tempo aqueles olhos não me viam... Há muito tempo não ouvia sua voz. Suave e rouca. Não saí. Ele implorou. Mas eu não queria deixá-lo. Ele chorou. Eu chorei, não sabia por que estava chorando. Ele disse que me levaria embora. Eu não quis. Queria ficar com ele. Mas ele não me queria mais. Eu não acreditei. Ficou por isso. 


Não nos vimos o resto do dia. Ele me deixou sozinho. Achei alguns biscoitos esfarelados, um resto de café frio e um leite azedo. A fome apertou e quase desisti. Mas não iria deixá-lo mais. A tarde abafada demorou a passar. Enquanto esperava me lembrei dos anos roubados pelo tempo. Como éramos felizes. Ao menos ele não estava sozinho. Esperava ansioso até que ele chegasse. Conversávamos e ríamos muito. Mesmo quando eles brigavam, ele ia ao meu quarto e a gente simplesmente aproveitava a companhia um do outro. Não precisávamos de palavras.


Lembro uma tarde, a que ele foi embora. Eles haviam gritado muito. Até quebraram alguns pratos. Da gritaria algo que ela disse me sangrou o fundo da alma: ‘não quero mais saber de você!’. Sabia muito bem o que isso significava. Quando ele foi ao meu quarto estava escondido na cama; com medo. Ele me abraçou. Disse que a gente não ia mais se ver. Eu chorei muito. Ele também. Mas as lágrimas não o impediram de me machucar. O que mais doeu foi ficar a noite toda acordado. Quem sabe ele não voltava pra casa... Ilusão. Decepção. Estávamos sozinhos; e ninguém pra nos abraçar. 


A noite entrou fria. Pensei que não o veria de novo. Mas ele veio. Trouxe comida pra gente. Enquanto comíamos, ele me olhava. Feliz. Há muito tempo não sorríamos. Não havia mais dor, não existia outra coisa no mundo. Só nós dois, aquele quarto. Estava tudo perfeito outra vez. Conversamos e rimos. Mas ele não era o mesmo; eu também não. Muito tempo havia passado. Mesmo assim, ele não quis que eu ficasse ali. Não havia nada que eu pudesse fazer. Aceitei e disse que de manhã iria embora. Ele sabia que era mentira.


De repente, uma batida à porta. Ele esperava alguém? Não. Também estava surpreso. E, pior, assustado. Ele me olhou e me mandou esconder debaixo da cama. Fui, com receio. Ele abriu a porta. Aqueles homens não pareciam contentes; muito menos seus amigos. Gritavam e empurram-no. Entraram e começaram a quebrar o pouco que tinha por ali. Desespero e medo. Pude ver em seu rosto. Mas eles me descobriram. Eu não sabia o que estava acontecendo. Eles me machucavam; batiam em mim. De joelhos, em lágrimas ele implorava que me soltassem. Jogaram-me no chão.


Ainda pude ver a dor em seus olhos. Eu te amo. Foi o que ouvi ele sussurrar. Não me deixa de novo. Foi o que eu lhe disse. Ele chorava muito, eu não conseguia. Ele me abraçou forte e não me soltava, mesmo enquanto o puxavam e o empurravam com muita força. Ele ignorava a dor e me olhava no fundo dos olhos. Ele ainda me sorri...  O último sorriso seu que eu posso ter. O mais belo de todos os que já me havia dado. O mais sincero. O mais profundo. O mais melancólico. A dor é muita. Mas não quero perder meu último momento com ele. Aspiro cada segundo, cada detalhe do seu rosto, cada lágrima de seus olhos... Levo tudo comigo. Deixo pra ele minha ingenuidade; meu amor teimoso, meu último suspiro...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Poesia de si mesmo

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A noite era fria e o vento cortava  o pasto. A lua, grande e desbotada, sorria-lhe, contemplando as estrelas dançantes. Não via sinal de chuva, embora da terra sentisse desprender-se aquele aroma delicioso que despertava seu desejo. Estava a sonhar, quase acordado, um sonho perturbado, mas sentia-se bem, não feliz, mas bem. Não queria que o sonho acabasse, mas um seco latido, vindo de depois das montanhas, com certeza, o assentou na úmida noite. Sentiu desconforto pela dureza da terra, mas não se moveu. Vagou o olhar, tão preguiçosamente quanto pensava, pelo céu. Não se fixou em nada, apreendia, inconsciente, a noite.

Suavemente, voltou ao sonho. Sentiu-se leve, mais que uma brisa. Ainda conseguiu ver seu corpo timidamente esticado e voou num relâmpago. Foi-se sentindo mais pesado, mais significativo, atestou que voltava a ser alma vivente. Mas a luz não lhe permitia ver, apenas sentia o vazio em volta de si. Nenhum vento, nenhum cheiro, somente o silencioso eco no nada. Se não fosse o calafrio percorrendo todo o seu corpo ao sentir cair aquela única e salgada lágrima, diria que já não mais era. De fato, era, mas nele mesmo. Despedaçado para formar um todo; mas um todo que só existia em si. Era o que estava a observar.

Sentiu-se unânime, sentiu-se universo. Essa complexidade não havia existido nele. Incapaz, instável, diminuiu-se na imensidão de ser, do seu ser. Era e simplesmente deveria ser. Mas não se conhecia. Não até então. Era completude e fragmento. Era sonho e realidade. Compreendeu e, então, chorou.

Chorou por conhecer sua realidade. Chorou por não se lembrar mais de suas doces lembranças. Chorou por ser alma carcereira de um espírito impetuoso. Chorou por não saber por que chorava. Chorou e se conformou com tudo o que se deveria conformar.

Passou-se tempo; tempos e momentos memoráveis, mas longe de ser aquilo com o que se deseja ser eterno. Mas sua eternidade, e isso o alentava, ali era breve. Sentiu e pensou o que não queria, mas foi com isso que aprendeu a ser poeta. Poeta, aprendeu a amar, única sensação a que se deu o trabalho de dissecar, não por beleza, mas por disparidade. Amou e não se cansou de querer amar. Só o que não gostava era dos sonhos.

Sempre que sonhava, acordava sufocado por uma angústia infinita. Não compreendia os sonhos, nem sequer os queria compreender. Pensava neles e logo se arrepiava por uma realidade tão impalpável. Era essa, no entanto, viria logo a saber, a angústia de um filho saudoso de seu lar. Mas ainda era cedo e não lhe convinha pensar em matérias tão longe das simples sensações a que seu corpo se submetia. Matéria esta que lhe exigia sentir com o espírito, algo absurdamente impossível.

Mas o que, ao parecer, estava longe de seu destino, anunciou-se numa esplêndida aurora. A dor foi intensa. Se pudesse não senti-la, ou simplesmente não conhecê-la. Seu corpo reacionava violentamente contra a agonia da alma. No entanto, o espírito regozijava-se. Um conflito de sensações estranhas percorria pesadamente seu corpo, morrendo ao se deparar com a vibração obscura do espírito. Já pouco sentia, já quase nada vinha-lhe à memória, já o eco gritava o silêncio aos seus ouvidos e a agitada luz dançava em seus olhos. Um zumbido fino cortava seu corpo. Afogou-se em si e desvaneceu.

Sentiu escorrer em seu rosto uma gota d’água. Chovia. Levantou os olhos e não podia contar as estrelas, mas sabia que eram muitas. Imaginou a lua, reinando por trás destas nuvens. Pensou na terra úmida que suportava seu pesado corpo, e na grama amassada por debaixo de si. Tudo em um lapso revigorante. Sorriu e decaiu-lhe do rosto uma lágrima que, misturada à chuva, regou religiosamente a terra. Voltava a ser poeta de si mesmo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sofia

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Foi numa noite como esta que ela chegou. Eu nada podia fazer naquele momento. A tempestade foi rápida e avassaladora. Lembro-me bem porque o meu corpo sentia este mesmo estremecimento ao ser sacudido pela brisa da manhã que estava por vir. Não dizia nada. Palavra nenhuma poderia dar um destino diferente àquela noite. Senti-me prisioneiro da minha alma, clandestino em meu corpo. Culpado e com nenhum esforço para obter a inocência, carreguei religiosamente meu sinistro fado.

A sombriedade dos dias que se seguiram foi-me remédio, comparada ao peso da dor que violava meu espírito. Fui o eterno doente a quem não interessa a cura. Deleitava-me em meus pesares. A cada angústia regozijava-me, como o pai se regozija ao receber em casa o filho outrora perdido. Não questionei o destino de meu espírito; minha alma se esparcia, então, na densa escuridão em que vivia. Onde habita, oculta, a luz.

Dói-me sua agressão; lastima-me seu toque. Carrego no espírito as incuráveis chagas que ela me trouxe, na alma, o ardente desejo de possui-la e no corpo, as inegáveis evidências do meu pecado. Cigana, me ressuscitou da morte causada por ela mesma. E, por isso, aprisionou-me. Não há caminho de volta. Assim como a noite esconde o dia, seu mistério arrebatou meu ser.

Amo-a por isso odeio-a. Somos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Telefone


O telefone tocou e ele se levantou, preguiçosamente, para atender. 6:15am. Quem poderia ser? Seja quem for, não quis dizer nada; talvez porque percebeu que havia discado o número errado, ou porque sentiu medo de dizer o que tinha de dizer. Seja qual for o motivo, a pessoas do outro lado da linha apenas aspirou profundamente o ar gelado da manhã e uns segundos depois desligou o telefone.

Ele não deu muita importância ao caso. Nem voltou para a sua cama. Dirigiu-se à cozinha e preparou um café. Tomou um banho, vestiu seu uniforme, entrou no carro. Trabalhou. Chegou em casa por volta das 7 pm, havia passado na casa de um amigo. Tomou um banho. Sentou-se no sofá e ligou a televisão, desligada cinco minutos depois. Foi à cozinha e leu os recados pregados na porta da geladeira. Saiu.

Quando passava pela esquina que separava seu prédio do pequeno mercado da esquina, o telefone público, instalado ali, ele bem lembrava, há duas semanas, tocou. Sem motivo algum ele parou para atender o telefone. Era um senhor querendo remédio para a gripe. Desligou o telefone e se dirigiu ao pequeno mercado da esquina. Lá comprou o que havia ido comprar e voltou, solenemente, para casa. Ao passar pelo telefone da esquina ainda conseguiu esboçar algo parecido com um sorriso.

Entrou em casa. Ela já havia chegado. Largou um “boa-noite” e foi direto para a cozinha. Ela o seguiu e lá conseguiram soltar mais algumas palavras ao vento. Jantaram. Assistiram a novela, o jornal. E foram dormir.

6:15 am.

O telefone tocou. Ele se levantou, preguiçosamente, para atender. Suspiro. Dessa vez a pessoa do outro lado da linha consegue dizer um “alô”. Mas não diz nada mais. Ele desligou o telefone. Foi até a cozinha, preparou seu café, tomou seu banho. Mas antes de sair pela porta de casa ela pergunta onde ele ia. Ele olha para ela, sem ver quem estava à sua frente. Era sábado. Eles voltaram para a cama.

Levantaram-se às 10 am. Tomaram café como se nada. Conversaram coisas supérfluas, esquecidas cinco minutos depois. Mas se lembraram que era sábado. E ele decidiu então contar a ela dos telefonemas anônimos. Ela ignorou o fato e disse que devia ser engano. Ele engoliu a história com o café. Chegou o almoço. Ela disse que amanhã era dia de ir visitar sua mãe. Ele não foi contra, apesar de detestar tais visitas. A noite empurrou, vagarosamente, a tarde clara, porém fria.

6:15 am.

O telefone tocou e ele se levantou, preguiçosamente, para atender. Suspiro. Uma voz de mulher soou no telefone; ele teve dificuldade de entender o que ela disse. Mas creu que conseguiu captar o essencial. Voltou para a cama após desligar o telefone. Ela o acordou, 11 am. Ele se levantou. Tomou seu café. Saíram. Passaram o dia fora. À noite eles chegaram, tomaram um banho. Jantaram o que trouxeram do almoço. Ligaram a televisão e logo foram dormir.

6:20 am.

O despertador tocou e ele se levantou. Ficou sentado na cama olhando para o telefone. Finalmente se levantou e se dirigiu, vagarosamente, à cozinha. Tomou seu café, se banhou. E saiu para o trabalho. Mas ele não havia se esquecido daquela voz tão profunda. Passou o dia pensando nela. E no que ela havia escutado. Ele não conseguia achar, porém, motivo para isso.

O dia passou lento e cansativo. Ele chegou em casa, ligou a televisão, desligada cinco minutos depois. Se dirigiu à cozinha e leu os recados deixados na geladeira. Saiu. Se deteve ao passar pelo telefone na esquina. Lançou um olhar profundo sobre as teclas. Tomou um sobresalto ao ouvir o som estridente que saiu do aparelho. Ainda assustado, atendeu. Uma jovem procurava alguém.

Ele chegou em casa, ela estava sentada no sofá, chorando. Ele não queria dizer nada, mas precisava. Ela havia sido dispensada do serviço. Ele se preocupou, não muito. Eles dariam um jeito. Mas ela estava inconsolada. Decidiu ir passar uns dias na casa de sua irmã. Ele não se atreveu a dizer que não. Ela fez as malas nessa mesma noite. Sairia no outro dia bem cedo. Foram dormir.

Quando ele acordou com o despertador, ela já havia saído. Ele agora, antes de ir preparar o café, precisava ir acordar o resto da casa. Todos em pé, tomaram café e sairam juntos. Mas o destino não era o escritório. Ele agora teria de passar pelo velho colégio, onde passou toda a sua adolescência, lembrança que ele não queria ter. Agora, sim, rumo ao trabalho. O dia passou nem muito lento, nem muito rápido. Mas ele agora precisava, novamente, enfrentar sua adolescência.

Chegou em casa, não ligou a televisão. Foi à cozinha, não havia recados. E ele, então, se sentiu sozinho. Foi ao pequeno mercado da esquina. Voltou e preparou um rápido jantar. Essa noite ele não quis ver televisão. Foi mais cedo para a cama. Adormeceu rápido. Mas achava que a cama estava muito espaçosa. Pediu que uma delas fosse dormir com ele.

6:15 am.

O telefone tocou e ele, preguiçosamente, se levantou para atender. Um profundo suspiro fez com que ele estremeçesse. Ninguém dizia nada, nem ele aqui, nem ela lá. Ele foi à cozinha, preparou o café. Despertou toda a casa. Saíram. Lembranças. Mais um dia, mais uma tarde.

A noite chegou mansa. Ele pensa nela. Saiu para ir ao pequeno mercado da esquina. Ao passar pelo telefone, ele soou estridente. Ele se deteve. Não queria atender. Mas sua ansiedade sempre foi maior. Um senhor, ele achou que o mesmo da outra noite, procurava um mesmo remédio para a gripe. Ele desligou o telefone e foi ao pequeno mercado. Dessa vez ele não sorriu ao passar pelo telefone.

6:15 am.

O telefone tocou. Preguiçosamete ele se levantou e foi atender. Suspiro. “Alô”. Ele permaneceu imóvel por um tempo. Mas despertou do transe e foi preparar o café, acordar a casa, enfrentar seu passado e passar mais um dia como todos os outros. Mas ele estava apreensivo. Não conseguia se concentrar. A ansiedade era muito grande. Ela perguntou se ele estava arrependido. Ele não respondeu.

A noite veio violenta. Ele sentia que o mundo ia desabar. Foi ao pequeno mercado da esquina. Encarou o telefone. Voltou para casa. Sentiu, novamente, aquela terrível solidão. Teve vontade de chorar. Foi mais cedo para a cama. Mas não conseguia dormir. Ficou pensando.

6:15 am.

O telefone tocou. Ele não queria atender. Olhou pela janela. O dia estava mais bonito; o sol parecia que ia brilhar mais forte. O telefone continuava tocando. Decidido, ele atendeu o telefone. Ouviu o suspiro e a mesma voz profunda, dessa vez, triste. Ele ficou gélido por uns instantes. Mas despertou e foi fazer o café, acordar a casa, enfrentar seus medos, sobreviver a mais um dia. Mas ele percebeu que o clima estava diferente. As pessoas estavam mais felizes. O sol mais brilhante.

A noite chegou manhosa. Ele se dirigiu ao pequeno mercado da esquina. O telefone tocava. Ele ignorou. Voltou para casa. Preparou o jantar. Foi dormir mais cedo. Adormeceu rápido.

6:20 am.

A casa amanhece em um sombrio silêncio.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Girassol


Brincavam no campo enquanto eu descansava à sombra da velha figueira. O sol brilhava em seus rostos e a tarde percorria seus corpos. Estavam felizes e é só o que importava. Já não se lembravam dos infortúnios, saltando sobre o prado de fogo. Tampouco eu me atrevia a interromper esse momento tão doce e comovente.

Já o sol queimava atrás do horizonte e elas não paravam de brincar como crianças que sempre foram. Desde o dia em que vieram a este mundo, surpreenderam-nos com sua beleza infantil. Eu, antes que qualquer outro, me apressei em oferecer-me como seu guardião. Tornei-me, com o tempo, muito mais que isso. Passávamos todo o tempo juntos e ninguém era capaz de nos separar.

Ainda me lembro quando, brincando de esconder, Soledad se perdeu no bosque e só pudemos encontrá-la quando já havia fugido o sol do campo. Ou quando, estando eu ferido da alma, Gisela me ofereceu seu ombro e recusou sair do meu lado até que estivesse curado. Meus ouvidos ainda escutam suas suaves e melancólicas vozezinhas, chamando-me a todo instante.

Aquele dia amanheceu menos amarelo que os demais. Entretanto, tudo parecia normal. Gisela e Soledad vieram me acordar. Queriam ir até o riacho que rega o prado e corre pelas sinistras pedras no outro lado do bosque. O vento agitava o sol no fundo do riacho e abria os sorrisos das minhas doces meninas. Mergulharam primeiro os pés, logo a água chagava às suas costas e, então, envolvia seus cabelos ardentes.

Por mais que minhas lágrimas corressem todo o mundo, o tempo jamais retrocederia. As havia perdido... para sempre. Minhas inocentes meninas, levadas pelo rio. Seus pequenos corpos se confundiram nas multidões das águas. Nada podia eu fazer frente à força arrebatadora do suave e sinistro rio. Contemplava-as nostálgico. Fechei meus olhos e já não era.

Ainda, embaixo da velha figueira, as vejo caminhar. Mas de longe... Choro todas as noites e passo os dias lamentando-me. Minha alma sangrará por toda a eternidade e, mesmo não sabendo elas, sempre estarei aqui.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma Paixão


Mistério, magia... não sei, na verdade, como definir isso que começo a narrar. O fato é que nenhuma ciência humana, e me arrisco a dizer que nem uma não-humana, conseguiria explicar. Não que eu queira amedrontar ou assustar, esse não é um conto de terror; antes, é um aviso que será muito útil antes de começar a ler as linhas que se seguem.

Não era um dia propício para algo assim. Terça-feira, quase três horas da tarde. É certo que o céu estava um pouco nublado e, embora não houvesse chovido desde a manhã de segunda, podia-se sentir o cheiro da chuva bem de leve, como se ela estivesse bem próximo. E ela a sentia, não só pelo olfato, mas sua pela conseguia sentir o orvalho que pairava no ar. Ela estava sentada ali naquela cadeira, ainda não havia terminado aquele livro, que ela havia começado há quase duas semanas. Ela sempre demorava em suas leituras. Quando leu “As Três Irmãs”, me lembro bem, demorou não menos que três semanas; “Otelo” foram uma e meia e “Hamlet”, duas. Mas suas leituras eram feitas com muito esmero. Às vezes fechava o livro e se imaginava nele. Na verdade, não se via Desdêmona, ou Macha, e muito menos Ofélia; o que ela imaginava era ela mesma em cada situação. Sua conclusão era sempre a mesma: não faria diferente.

Mas o que ela lia era algo um pouco diferente de suas leituras habituais, posso dizer que uma experiência literária nova; e, pelo que parecia, lhe estava agradando: “Casa Velha”. Sempre preferiu as peças de teatro, eram mais tensas e misteriosas; as poesias, guardava para as noites de insônia e os contos, para os feriados no campo; já os romances, somente quando recomendados por ele, o professor de literatura. Nunca havia lido uma novela, embora sempre a achasse bem parecida com os contos. Mas essa foi recomendada, não por ele, mas pelo velhinho simpático da livraria ali da esquina. Uma figura peculiar, tudo conhecia de literatura, muito sabido, mas nunca conversava com ninguém. Ela sempre visitava a livraria em busca de uma nova leitura, mas o velho Noé, assim ela o chamava, nunca lhe indicava algum que merecia ser lido por ela. Mas isso foi até aquela quinta-feira em que ela entrou na livraria e, como sempre, “Bom dia, seu Noé”, “Bom dia, minha flor”, era o que ele sempre respondia, e só isso. Ela passeou pelas estantes e parou em uma que, por acaso, chamou seus olhos.

O que ela viu foi, por trás de um livro, um bloco de papel velho amarrado por uma fita igualmente gasta. Seus dedos puxaram o papel e ela leu na primeira página do caderno: “Casa Velha”. “Gosta de Machado de Assis?”, ela se assustou com a pergunta, não com seu conteúdo, mas de quem vinha. O velho Noé lhe repetiu a pergunta e ela só pode balançar a cabeça, fazendo que sim. A verdade é que conhecia pouco esse autor, mas ela não conseguiu pensar em uma resposta mais adequada. “Esse é um dos meus autores favoritos”, o velho disse e voltou para o balcão. Ela não pensou mais e veio ansiosa para começar a leitura. Posso dizer que também fiquei curioso para saber do que se tratava tal novela. A princípio, também achei que fosse um conto, ou um romance, até que o professor lhe disse que não, era uma novela. Conto ou novela, não importa, o que ela queria saber é por que o velho Noé lhe falou, lhe confidenciou aquilo, já que na sua voz ela pode sentir certo tom de segredo, daqueles que se conta ao pé da orelha.

Ela começou a leitura na sexta à tarde, depois do almoço, como de costume. Seus olhos brilhavam a cada palavra, a cada frase, a cada parágrafo. Diferente da dela, minha curiosidade persistiu. Senti ciúme daquele livro, e raiva do inocente velhinho. Alice nada dizia. Nem piscava o olho. Comecei a ficar preocupado quando ela fechou os olhos e ficou imóvel na cadeira. No sábado, durante a leitura matutina, continuou sem falar nada enquanto lia. No domingo, a mesma coisa. Segunda e durante toda a semana apenas me dirigia alguns comentários dos quais nada pude extrair, já que não sabia nem sequer do que se tratava aquela incrível novela. Minha raiva foi passando, percebi que o velho nada tinha a ver com as emoções de Alice; meu ciúme aumentou e passou do livro para Machado. Como ela o elogiava! Senti-me rejeitado. Mas foi no domingo que tudo voltou ao normal. À tarde ela passou horas e horas conversando comigo a respeito do livro. A perdoei pela breve rejeição, percebi meu egoísmo. Mas foi então que tudo começou. A paixão com que falava do livro, da narrativa, do enredo, das personagens... Tudo me pareceu diferente. Ela não sorria como de costume, mas seus lábios esboçavam, não, transpareciam uma sensação nova, um sentimento diferente, mais intenso por essa novela.

De fato, é um ótimo livro. Mas ela havia se tornado mais que uma simples leitora. Suas leituras foram se tornando mais tensas e freqüentes; passava o dia inteiro sentada na varanda. Tornou-se mais sensível do que já era, como se desenvolvesse um sexto sentido, um sentido literário. Via poesia em tudo. Estava mais meiga e mais amarga, mais suave e mais grave, tão doce e tão azeda; dual, como a literatura.

Foi então que chegou ao zênite.

Já sabemos que o dia é terça-feira, quase três da tarde. O que o leitor ainda não sabe é que Alice estava mais radiante nesse dia que em qualquer outro em que a vira. Seus cabelos estavam mais brilhantes, seu rosto mais iluminado, seus olhos mais... oblíquos, talvez. Mas o que mais chamava a atenção eram seus lábios; traziam um sorriso infantil, mas não deixavam de ser sensuais, ao mesmo tempo simples e ousado. No entanto, foi quando ela conversava comigo que tudo aconteceu. Ela começou falando de sua leitura, fazia comentários e elucubrações na narrativa. Até aí, tudo normal. Mas ela, então, me olha nos olhos e disse: “Sonhei com Félix esta noite...”. Ela não terminou a frase, acho que percebeu meu incômodo ao pronunciar essas palavras. Tentou mudar de assunto. Mas voltou ao sonho.

Ela não me contou seu sonho, nem era preciso. A paixão com que pronunciou aquele nome me fez perceber que ela havia ultrapassado o limite. A realidade para ela era a literatura. A vida real se tornou uma espécie de ficção. Sua vida estava já na literatura. Ela não era Lalau, ou D. Antônia, continuava sendo Alice, mas não estava mais neste mundo. Seu mundo era o literário. Mas entrou em conflito nesse mundo. Era muito amiga de Lalau e se apaixonou por quem não devia. Então, Alice chorou.

Chorou, mas eu não tive pena dela. Estava mais preocupado com seu espírito do que com seus sentimentos. Mas também chorei. De seus olhos, várias lagrimas caíram, dos meus, creio que duas ou três. Ela chorava de tristeza, raiva, amor, eu, somente de amor. Não sabia o que fazer. Olhava para ela e via sua loucura, mas me apaixonava ainda mais; em seus olhos a inocência brilhava ao lado da paixão. Ela fechou o livro. Enxugou a última lágrima. “Ah! Sansão, não sei por que ainda me importo com a literatura... ela não faz mais que nos aprisionar por algum tempo, e durante esse tempo ela nos pisa, nos amassa, nos mastiga e nos atira o mais longe que pode! Depois, voltamos nós, rastejando que nem bebês, implorando que ela nos aceite de volta. Pra quê? Pra sofrer tudo de novo!?”. Eu olhei pra ela, mas ela não estava olhando para mim. Ela se levantou, passou a mão na minha cabeça e terminou: “Mas é melhor viver nela do que viver no mundo real, não acha?” Não pude dizer o que pensava. Ela já havia entrado em casa. Na varanda apenas seu espírito ficou, vagando a minha volta, cantando sua paixão à literatura; seu cheiro, que ainda pairava no ar, se misturou, então, ao cheiro da chuva, que começava a cair. Fiquei observando-a cair, cada gota, cada pingo. Dormi, sonhei com Alice.

domingo, 28 de setembro de 2008

Lágrimas

A rua ainda trazia sinais da leve chuva que caiu durante a noite. A relva, úmida, brilhava aos primeiros raios de sol; o solo exalava o odor fresco do orvalho. Uma leve brisa corria pelo ar, causando-lhe calafrios. Como seria bom estar em casa, aquecendo seu corpo junto ao dela. Mas há meses não sabia a cor de seus olhos, o aroma de seus cabelos, o calor de sua tez, o suave toque de seus lábios.

Ele para em frente aquela que, um dia, fora sua casa. É cauteloso, não se deixa se ver. Observa fixamente uma das janelas. Percebe um vulto; sabe que é ela. Segue caminhando pela rua. Seus olhos passeiam pela paisagem que da sua frente foge. Um cão se esconde embaixo do banco; nem parece ver o gato que, cuidadosamente, por trás de si, caminha tranquilamente. Não se importa, só deseja não sentir todo esse frio. O garoto na esquina busca, atento, aos leitores que, mais por rotina que por interesse, correm os olhos sobre as manchetes. Aos poucos, os carros enchem as ruas, os pés atrasados somem pelas portas, os guarda-chuvas se atropelam nos ônibus.

É tudo como sempre será. O ciclo continua. Os homens, máquinas que fazem o mundo girar, nunca mudarão. Mas nem sempre foi assim. O mundo não era esse composto de engrenagens fixas, prontas para girar e cumprir sua simples função de não deixar parar o mundo.

Apesar de tudo, ele ainda vê que o sol continua a brilhar. O orvalho ainda reflete em seus olhos os pequenos e fugidios raios de sol. O calor ainda penetra pela sua pele, fazendo-o sentir a manhã. Ele ainda sente o suave cheiro da terra. Seus olhos, então, repousam sobre a triste figura daquele animal.

Seu olhar melancólico alcança aquela figura parada a olhar pra ele. Seus olhares se cruzam, como se partilhassem a mesma dor. Seus olhos acompanham os sofríveis passos, até que se percam na esquina. Antes de sumirem por completo, uma última olhada. Sim, é um olhar mais que de compaixão, de cumplicidade.

Seu pensamento, então, voa, não muito longe. O olhar daquele cão lhe devolveu o sentido. Ele, finalmente, pode compreender. Antes de virar a esquina, mais uma vez volta-se para o pobre animal. Não somente o cão, ele observa, também, o caminho percorrido daquele banco até aqui, nesta esquina. O mais longo caminho já percorrido.

Seu espírito, agora, mais vivo, mais alegre. Finalmente o sol lhe enche todo o corpo; na mais bela sinfonia o canto dos pássaros lhe envolve a alma; o cheiro da terra sobe por suas narinas como um inebriante perfume; em suas pupilas as cores do dia brincam; também o ar, agora ele pode sentir, tem o sabor do néctar.

Suas pernas o levam para casa; a sua casa. Ele ouve a campainha. Ouve passos. A porta se meche. Extasiado, não consegue dizer uma palavra. A porta ia se fechar, mas seu braço a impede. Ele olha, profundamente, para aquele brilho, bem conhecido, mas que agora brilha por outro motivo. Ainda as palavras não saem. Ele tenta, com o olhar, reacender a chama daquele coração que um dia fora seu. Ele percebe que o brilho muda; o olhar muda. A porta não mais quer fechar. Sente que a chama se reanima. Fria, uma lágrima rolava pelo seu rosto e caía pelo seu queixo. Outra lágrima, então, cai. Mas as lágrimas não são pela mesma chama.

A porta se fecha, fazendo o mundo cair em pedaços...